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Uma semana depois, ataques em Pacaraima dividem venezuelanos e moradores

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Brasil por terra – de 500 a 900 por dia

Uma semana depois da explosão de violência em Pacaraima, em Roraima, a perspectiva de moradores e imigrantes venezuelanos sobre o que aconteceu acirra a divisões na fronteira com a Venezuela.

Para moradores, os confrontos foram uma “tragédia anunciada” ocasionada pela falta de ajuda para lidar com o êxodo do país vizinho e pelo aumento de crimes na cidade. Muitos negam que tenha havido violência no sábado, dizendo ter se tratado de uma “manifestaçãozinha simples”, uma “confusão”.

Já venezuelanos ouvidos pela reportagem estão desolados por ter perdido seus pertences nos ataques, e com medo de permanecer na cidade. Muitos voltaram para o seu país, alguns seguiram para Boa Vista e outros vêm dormindo na zona neutra no meio da fronteira para evitar represálias em Pacaraima.

No sábado passado, centenas de moradores expulsaram imigrantes que acampavam pelas ruas da cidade, e atearam fogo a seus pertences.

Durante os dias em que a reportagem esteve em Pacaraima, ouviu muitos relatos de violência sofrida pelos venezuelanos.

Oscar Rojas, de 33 anos, , que chegou a Pacaraima há mais de um ano, morava com outros venezuelanos em um box do mercado produtor da cidade. Assim como seus companheiros, teve todas as suas coisas queimadas – roupas, dinheiro, os telefones da família e os dados bancários da mãe, para quem enviava dinheiro sempre que podia na Venezuela.

Com medo de continuar em Pacaraima, resolveu tentar a sorte em Boa Vista, ansioso para conseguir um emprego em uma padaria fazendo bolos e biscoitos, sua especialidade desde a adolescência.

“Em meu país eu passava fome, mas estava em casa. Agora não tenho comida, trabalho nem possibilidades. Não queria sair da minha casa para passar pelo que estou passando agora”, afirmou à BBC News Brasil, enquanto esperava o ônibus para a capital. Vai tentar recomeçar, mais uma vez.

Sem imigrantes nas ruas

O comerciante Francisco Souza Nogueira
Image captionO comerciante Francisco Souza Nogueira diz que os espaços públicos da cidade estavam tomados por imigrantes venezuelanos

Uma semana depois dos ataques, o clima entre os locais não é de consternação com o que ocorreu, nem de mea culpa.

Na visão deles, a cidade está mais tranquila: não há mais venezuelanos acampando nas calçadas da cidade, e o reforço do policiamento teria inibido a prostituição e a venda de drogas, argumentam moradores e comerciantes.

“Eles ficavam no meio das praças, nos ambientes em que a família da gente queria brincar, passear, e ninguém podia. Por quê? Fluxo de venezuelano. Morar em alojamento é uma coisa, na calçada é outra”, argumenta Francisco Souza Nogueira, de 38 anos, dono de uma loja de acessórios e recarga de celular.

Vídeos dos acontecimentos de 18 de agosto mostram moradores empilhando os pertences dos imigrantes nas ruas e jogando combustível sobre os acampamentos precários onde viviam, ateando fogo a tudo em seguida. Alguns carregavam paus e pedras. Sob gritos e aplausos da população, mais de mil imigrantes foram forçados a cruzar a fronteira de volta para seu país.

Em um vídeo, um morador descreveu assim os acontecimentos: “O pau tá comendo, menino, tamo expulsando os venezuelanos! É desse jeito agora. Se não tem governante, se não tem autoridade, nós vamos fazer a nossa autoridade. Fora venezuelanos de dentro de Pacaraima!”

A Polícia Civil de Roraima abriu um inquérito para investigar os ataques e apurar se houve crimes de ódio, xenofobia e incitação pública à violência.

Um segundo inquérito buscará elucidar o assalto contra o comerciante Raimundo Nonato de Oliveira, que foi o estopim para a revolta de sábado. O comerciante sofreu agressões ao lado de sua esposa, Maria Carneiro da Frota Oliveira. Os quatro assaltantes seriam venezuelanos.

‘Pacaraima vem sofrendo’

Dois venezuelanos sentados em frente a ônibus deteriorado em RoraimaDireito de imagemAFP
Image captionSegundo governo, cerca de 1.500 pessoas estavam vivendo nas ruas de Pacaraima

Fundada em 1995, Pacaraima tem cerca de 12 mil habitantes e é porta de entrada para os venezuelanos que entram no Brasil por terra – de 500 a até 900 por dia. Eles chegam fugindo da grave crise econômica em seu país, sofrendo com a falta de comida de comida e medicamentos, serviços básicos e uma inflação astronômica.

De acordo com o governo de Roraima, cerca de 1.500 pessoas vinham vivendo nas ruas de Pacaraima. A maioria vive em situação de extrema pobreza (os venezuelanos com algum dinheiro costumam seguir para outras cidades ou países). O salto da população de imigrantes trouxe mudanças profundas para uma cidade.

De acordo com a delegada geral da Polícia Civil de Roraima, Giuliana Castro, a cidade vive um aumento da criminalidade.

“Pacaraima vem sofrendo. Queremos criar nossos filhos em segurança e ter liberdade de ir e vir. Não invadimos a terra de ninguém com violência”, afirma ela, que depois dos ataques de sábado vem organizando carreatas com buzinaços pela cidade – “para alertar o povo que a gente está na paz”.

A professora do ensino fundamental Neura Costa diz que hoje as pessoas “têm medo de sair de casa”.

Ela afirma que a cidade recebe bem venezuelanos, mas que não há espaço para todos – e muito menos para os que recorrem à violência. “Não que todos sejam bandidos. Não são”, reconhece.

Neura admite que a população foi violenta nos confrontos de sábado. Mas justifica: “Sabe por quê? Porque há anos estamos recebendo e ajudando os venezuelanos e pedindo ajuda do governo federal. Só que o governo não olha para nós. A gente pediu, suplicou. A governadora (Suely Campos) foi não sei quantas vezes a Brasília, o prefeito (Juliano Torquato) também. Ninguém atendeu”, afirma. E quando veio a notícia sobre Seu Raimundo, “o sangue subiu.”

A professora do ensino fundamental Neura Costa em uma das carreatas que vem organizando
Image captionA professora do ensino fundamental Neura Costa vem organizando carreatas

Depois dos ataques, a governadora de Roraima, Suely Campos (PP), voltou a solicitar ao STF o fechamento temporário da fronteira, que fora negado pela ministra Rosa Weber no início deste mês. A Advocacia-Geral da União já enviou manifestação contrária ao Supremo, afirmando que a medida violaria tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.

Roraima enviou ainda um ofício ao governo Temer apresentando dez demandas para enfrentar o fluxo desordenado de venezuelanos, entre elas a intensificação do programa de interiorização de imigrantes para outros Estados, o envio de um escâner para fiscalizar veículos, cargas e volumes que adentram o país a exigência de passaportes para que os venezuelanos entrem no Brasil.

Nesta semana, o governo federal enviou 60 homens da Força Nacional de Segurança para reforçar o policiamento na fronteira e nas ruas da cidade e prometeu acelerar o programa de interiorização, anunciando que mil imigrantes serão transferidos para outras regiões até o início de setembro. Desde abril, apenas 820 venezuelanos foram transferidos para outras regiões.

Em visita a Pacaraima na quinta-feira, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, admitiu que o programa de interiorização precisa ser aprimorado, mas disse que a União não pode impor a outros Estados que aceitem os venezuelanos.

Noites no chão e famílias sem ajuda

À noite, mulheres passam com malas em frente a agentes de segurança e viaturasDireito de imagemREUTERS
Image captionApós ataques, governo federal enviou reforço na segurança a Pacaraima

Nesta semana, as calçadas e espaços antes ocupados por imigrantes em Pacaraima se mantiveram vazios após sua expulsão no sábado passado.

A BBC News Brasil acompanhou um grupo com dezenas de imigrantes que têm dormido na zona neutra entre os dois países desde então. Quando a luz do dia começa a cair, eles se dirigem para o trecho além da fronteira brasileira e buscam lugares para dormir no trecho intermediário que separa a entrada do Brasil e da Venezuela. Alguns ao relento, sob as árvores esparsas na vegetação de savana; outros sob um galpão venezuelano próximo à aduana do lado de lá.

Entre as dezenas de pessoas esticando lençóis e toalhas para dormir no chão do galpão estava Amparo Delgado. Ela chegou ao Brasil com outros 11 membros de sua família.

O grupo havia dado entrada à documentação brasileira no centro de triagem e acolhimento montado pelo governo federal, ONGs e organizações internacionais na entrada do Brasil. O processo, porém, leva alguns dias – e a solução encontrada foi dormir na zona neutra. Em uma tigela sem tampa, ela levou um pouco de água potável do banheiro do centro de triagem, para que pudessem escovar os dentes antes de dormir.

“Estamos aqui porque não temos dinheiro para pagar um hotel nem conhecidos para quem pedir ajuda”, explicou Amparo. “E, com a situação com a sociedade civil de Pacaraima, não queremos nos arriscar a dormir lá.”

Ela é mãe solteira de três filhos, mas veio para o Brasil sem as crianças, que ficaram com a mãe. Sua esperança é conseguir um emprego para poder enviar dinheiro para casa. Ela diz que muitos conterrâneos têm medo de sair do país e ser taxados de traidores à pátria.

“Mas a verdade é que a situação na Venezuela está impossível. Não tivemos opção se não vir para cá para tentar uma vida melhor”, lamenta.

Medo de agressões

Ao longo da semana, moradores de Pacaraima se mostraram irritados e incompreendidos com a forma como as notícias sobre as agressões se disseminaram no Brasil e no exterior.

“Eles são queridos na cidade”, diz Iolanda de Oliveira, de 43 anos. “Mas você sabe que tem o bom e tem o ruim. A gente estava com medo de andar no centro, havia muita droga, muita cachaça. Agora amenizou um pouco”, considera. Para ela, “a mídia aumentou as coisas”.

Mas imigrantes na cidade lembram as agressões com um misto de medo, revolta e o desespero que sentiram ao ver suas coisas sendo destruídas.

Felix Eduardo Gonzalez ao lado da família
Image captionO venezuelano Felix Eduardo Gonzalez (de blusa laranja) teve os pertences da família, incluindo as roupas de seus três filhos, queimados nos ataques

Andando pela rua com seus três filhos, de 4, 5 e 7 anos, Felix Eduardo Gonzalez disse que todos os seus pertences foram tirados do galpão onde estava morando com a família – e viraram cinzas.

“Agora tenho que ficar pedindo comida, porque os alimentos que tínhamos foram queimados, e fico perambulando pela rua com os meus filhos”, afirmou.

Gonzalez carregava um prato com arroz e pedaços de frango que alguém lhe havia dado. Com garfadas alternadas, dividia a comida entre as três crianças. A menina mais nova dava pulinhos ao lado do pai, abrindo a boca e esperando a sua vez.

“Se quiserem que eu vá embora, eu vou. Mas então que nos deem dinheiro para ir, porque o dinheiro que tínhamos foi queimado também”, afirmou. “Até os sapatos perdi. Me deixaram descalço”, disse, apontando para o par de chinelos tão gasto que só protegia metade da sola do pé. Com informações da BBC

Imagem de capa: AFPP

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