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Os Pinto Pinto Pinto e Silva: Crônica-ensaio sobre uma família composta somente por amigos

Cenas inesquecíveis, registradas na alma

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Por Ralmer Nochimówski Rigoletto

Se lembra do futuro

Que a gente combinou?

Eu era tão criança

E ainda sou …

(Maninha – Holanda, F.B.)

Parte 1 – Essa incrível energia chamada atração.

 Final dos anos 80, início dos anos 90 do século passado.  É isso mesmo.  Essa família é do século passado.  Damos o nome de família, pois a união que caracteriza nosso grupo transcende todos os limites que se possa imaginar dos vínculos meramente fraternos encontrados na amizade.

Não tenho a precisão de como e onde ela começou.  Mas, sei que de alguma forma todos estávamos ali, vivendo experiências semelhantes, numa mesma fase da vida.  A maioria de nós já contava dos vinte anos para um pouco mais ou um pouco menos e já nos achávamos, cada um, dono do próprio nariz (expressão de época que certamente todos ouvimos de nossos pais, mostrando que não era bem assim).

De minha parte, houve um fator determinante de ligação com os elementos raiz da família: a arte, o teatro.  Nos encontramos no Instituto de Artes, pavilhão das Artes Cênicas da UNICAMP, num verão tão quente que nem Marina Lima e Renato Rocketh imaginariam para sua música. A atração foi instantânea e definitiva, pois daquele momento em diante, eu sabia que aquelas pessoas estariam para sempre na minha história.

É interessante, quando paro para pensar nisso, já que no caso deste grupo, não houve regra para a atração entre as pessoas. Salvo poucas exceções, as pessoas se aglutinaram em tempo muito próximo umas das outras. E nossa família é bem diversa em suas origens étnicas, econômicas, culturais e de orientação do desejo sexual.  Mas o fato é que tivemos uma liga instantânea que passou por múltiplas fases entre seus elementos, desde a paixão e o desejo, passando pelo amor platônico e desembocando numa cumplicidade e respeito que é extremamente difícil de explicar.

Parte 2 – Expandindo horizontes.

Não sou uma pessoa de quem se possa ouvir contar de “amigos de infância”. Tive e tenho amigos pontuais, de locais como o colégio técnico, a comunidade de jovens, a faculdade.  Mas, com essas pessoas que estamos tratando aqui nesta crônica auto e multi biográfica, ou seja, os Pinto Pinto Pinto & Silva, posso dizer que, naqueles idos do século XX, havia enfim, achado (ou reencontrado) meu grupo, minha “turma”.  Ainda movidos pela força da atração, passamos para uma expansão incontrolável.  Primeiramente, o grupo agregou novos elementos, parceiros(as), namorados(as).  Em seguida, ganhamos novos horizontes.  Elegemos um ponto de encontro, onde quase diariamente comparecíamos após as aulas das respectivas faculdades ou após o dia de trabalho.  Ali, exercitamos a troca de conhecimentos diversos, por conta de tudo que estávamos apreendendo do mundo, das ciências, das artes. Ampliamos a nós mesmos, crescemos.  E em seguida, expandimos para fora de Campinas.  Caímos na estrada. Esse foi um momento de grande conquista.  Apesar das dificuldades que eu imagino que alguns de nós tinha em conseguir o carro emprestado com os pais, bastava o calendário mostrar um feriado prolongado que nossas mochilas e barracas já estavam prontas para a viagem, que certamente teria como destino Trindade, uma vila de pescadores considerada um paraíso escondido no litoral sul do Rio de Janeiro.  Ah, quantas viagens!

Parte 3 – E então, os hormônios…

Claro que tivemos uma fase de hormônios à flor da pele. E acompanhamos uns aos outros em todas as armadilhas e surpresas que essas substâncias nos proporcionam. Foram as mais tragicômicas histórias, prazeres e situações vividas e sofridas por um grupo. É interessante lembrar que houve affairs breves, longos, intra e extra membros da família e, sob minha interpretação, resultantes não só da atração já mencionada, mas principalmente pelo grande amor que sempre existiu, nutrindo nossas ligações. Quando alguém da nossa turma se apaixonava, salvo exceções, todos os demais se apaixonavam pela pessoa também, acolhendo prontamente para o grupo. Quando uma nova amizade surgia, surgia para todos, considerando que o crivo do grupo era muito similar. Mas, naqueles tempos, tudo era muito mais temperado e saborizado pelos tais hormônios.  Foram tempos também relativamente complicados.  Vivemos uma fase de transição entre a liberdade proposta pela revolução sexual dos anos 60 e o advento da AIDS, que no início dos anos 90 já ceifava ídolos, pessoas do nosso convívio e propunha-nos um novo modus operandi da sexualidade, diferente da que sempre vimos na geração que nos antecedeu.  Tratar algumas dessas situações com humor foi fundamental para atravessar essa fase tão (des)temperada de nossa juventude.  Posso dizer que fomos (e ainda somos) especialistas nessa forma de lidar com muitas coisas. Quase tudo recebe uma pitadinha de um erotismo ácido, ou seja, se as famílias tradicionais italianas, por exemplo, são falastronas, exageradas, comem, brigam e falam alto, a nossa sempre desemboca seus comentários num toque de sexualidade engraçada. É o filtro proposto pelos hormônios que, mesmo passados trinta e poucos anos, ainda atuam fortemente.

Os Pinto Pinto Pinto e Silva/Da esquerda para direita em primeiro plano/Lio e Morgana/Segundo plano/Dirceu, Gil, Clélio e Célia (em Pé)./Áurea, Ed, Simone, Sueli e Eliana (sentados)./Terceiro plano/Wandy.

Parte 4 – Lembranças, reminiscências e nostalgias.

Esta parte, reservo para algumas cenas específicas que, de forma singela, ficaram gravadas no coração. A primeira cena que me surge é de uma noite no bar Pastelão (que era o tal do ponto de encontro que mencionei acima), em que estávamos todos muito alegres, felizes mesmo, pelo nosso encontro e nos abraçamos fortemente, um bloco unido, forte, intransponível. Naquele abraço coletivo criamos o nosso mundo e tudo que estava fora pertencia a uma galáxia distante. Muitas vezes quando nos reencontramos, ainda tenho essa mesma sensação. Por sorte, alguém sempre tinha à mão uma máquina fotográfica para registrar, já que smartphones são equipamentos muito recentes.

A segunda cena já revelava em todos nós uma imensa atração pelos folhetins. Estávamos acampados debaixo da Grande Jaqueira da Colina da Praia do Cepilho (dei esse nome para ganhar um ar mais apoteótico).  Não havia nenhuma estrutura de camping.  Era selvagem prá valer.   Naquela noite, seria transmitido o último capítulo da novela Vale Tudo, em que seria revelado o(a) assassino(a) de Odete Roitman.  Levei uma pequenina TV portátil, preto e branco, que ligava no isqueiro do carro. Pequenina mesmo: cabia numa caixa de sapatos.  E bem ali, sob a Grande Jaqueira, nos reunimos em torno da minúscula TV e com olhares hipnotizados pela trama que se desvendava, fortalecemos mais ainda nossos laços, nossa amizade e nosso interesse pelas incríveis histórias da teledramaturgia. Na atualidade, temos na família especialistas na área!

Teria ainda as cenas da perereca no box do banheiro, na qual, mesmo depois de retirada, jogaram sal e mesmo assim ela voltou para o box; a da panela de lentilhas que entornara no gramado e era o único acompanhamento para o arroz naquela noite de Réveillon selvagem; do nadador pelado das pedras da Praia da Figueira que deixou todo mundo “exaltado” (por conta dos hormônios antes citados, é claro!); também a do Réveillon completamente às escuras, na beira do mar, em que peguei o violão, começamos a cantar e quando nos demos conta, tinha uma multidão à nossa volta; das estreias dos nossos espetáculos teatrais; das nossas formaturas… Mas, nenhuma é tão intensa quanto a jornada de subida do morro do “Deus me livre” após dois dias de chuva.  Os carros só subiam se fossem puxados por um trator ou se colocassem correntes nos pneus.  E lá fomos nós! Correntes nos pneus e as amigas mais “pesadinhas” sentadas no capô dos carros para auxiliar na fixação dos mesmos somente na estrada. Eu nunca tinha visto tanta lama dentro e fora de um carro em toda minha vida! Também foi ali que aprendi o significado dos termos derrapagem e perder a direção. Mas, saímos ilesos.

Cenas inesquecíveis, registradas na alma.

Parte 5 – O tempo não para.

E assim fomos chegando à maturidade.  Empregos, carreira, casamentos, separações, filhos, mudanças.  Com estas últimas, os caminhos entre nós tornando-se mais distantes. A vida é impiedosa diante da necessidade que temos de controlá-la. Tentamos segurar o tempo, mas os anos passaram.

Isso, no entanto, não significou algo ruim.  Nesse período, nossa família produziu muito através de seus componentes, cada um em sua área.  Olho para tudo que cada um fez e tenho um orgulho imenso, além da certeza de que há um pouquinho de mim nessas histórias.

E, como diz o ditado, o mundo dá voltas.  Numa dessas, aqui estamos nós de novo, reunidos, intensos, firmes no afeto. Apesar de não controlarmos o tempo, nossa sensação é de que a distância física nunca existiu.

Parte 6 – Epílogo (será?)

O termo que utilizei para caracterizar este último tópico certamente não se aplica a nossa família. Temos ainda muito que viver e contar sobre o que virá, afinal, vínculos como esse que construímos, não se desfazem jamais.  Considero que entre nós, nessa história, nesses personagens que estamos vivendo hoje, não começou e não terminará nesta existência.

Quando falo da atração, na parte 1, me refiro a uma lei que rege o universo e que age efetivamente sobre os seres.  Para nós, humanos, se apresenta com o nome de afinidade e funciona no binômio afeto – desafeto, sendo que neste último, registra-se a repulsão, algo que não faz parte deste grupo. A afinidade é o que faz com que os espíritos formem famílias e, de modo geral, nem sempre passaram pela consanguinidade. Tendem a evoluir juntos, cuidam uns dos outros, auxiliam aos que estão com dificuldade na jornada evolutiva; assumem, também pela afinidade, compromissos ou experiências semelhantes na jornada da vida, para que possam dentro do convívio, aprenderem e se desenvolverem juntos.  Nossa história, neste grupo, é assim.  Observo que, apesar da diversidade que já citei, tivemos também muitas semelhanças em nossas origens, experiências extra grupais de infância e adolescência, na nossa trajetória cultural, educação formal recebida de nossos pais.  Somos muito parecidos em nossos valores e crenças pessoais e nas escolhas que fizemos ao longo de nossas vivências individuais. Isso, em minha análise, é mais do que suficiente para caracterizar uma família espiritual: pessoas cuja afinidade se colocou a serviço da evolução de todos, conjuntamente e, ao mesmo tempo, respeitando a necessidade das experimentações próprias, individuais.  Quando aparentemente estivemos distantes fisicamente (mas nunca em pensamento / vibração), houve a consolidação da vida profissional e relacional de cada um, significando o espaço de tempo necessário para que se colocasse em prática tudo aquilo que, muito provavelmente está ligado às nossas missões de vida.

Éramos crianças em espírito e ainda o somos, nesse grande caminho que é a eternidade. Portanto, estou certo que muitas vezes lembraremos do futuro que juntos combinamos. É para lá que estamos rumando.

Entendo que viemos juntos para a experiência terrena, certos de que juntos estaríamos sempre, nos acompanhando mutuamente. E estou certo de que juntos permaneceremos além desta existência, pois somos, sim, uma linda família, sintonizados pelo afeto, pelas afinidades, pelo respeito e especialmente pelo amor.

Epílogo? Ao lado dessas pessoas, desconheço o significado dessa palavra.

 

Ralmer Nochimówski Rigoletto

(Orgulhosamente Pinto Pinto Pinto & Silva).  

1 comentário
  1. Sueli Diz

    Ralmer, gratidão pelo texto. Ficou lindo ! Gil gratidão pela publicação. Sou muito feliz por pertencer também a esta família de pessoas tão especiais. Amo vocês todos !

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