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‘O povo não quis eleger, quis derrotar’, diz Cristovam Buarque

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Apesar de fazer críticas a Haddad, ex-petista afirma que não decidiu em quem votará no 2º turno, mas descarta a possibilidade de ‘ajudar a abrir as portas para o autoritarismo’.

Aos 74 anos, o senador Cristovam Buarque (PPS-DF) preferiu deixar para as urnas a decisão de encerrar sua carreira política.

Não queria continuar, mas diz que se candidatou porque não podia se omitir.

O veredito veio no domingo (7). Com quase 86 mil votos a menos que seu concorrente direto, não conseguiu renovar o mandato no Senado.

Em uma eleição na qual apenas 8 dos 32 dos senadores que tentaram reeleição foram bem-sucedidos, Cristovam avalia que o povo está irado e “não quis eleger, quis derrotar”.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o ex-petista diz não ter errado ao votar a favor do impeachment, do teto de gastos e da reforma trabalhista, mas reconhece o impacto eleitoral negativo.

Apesar de fazer críticas a Fernando Haddad (PT), afirma que não decidiu em quem votará no segundo turno, mas descarta a possibilidade de “ajudar a abrir as portas para o autoritarismo”.

Pergunta – O que a eleição deste ano deixou de recado?

Buarque – Em 2005, fiz um discurso dizendo que o povo ia mandar todos nós para casa. Eu temia pior, que um dia invadissem isso aqui e mandassem todo mundo embora. O tempo passou, vieram as manifestações, uma indignação muito grande. A população cansou de nós. O povo não quis eleger, o povo quis derrotar. E está certo, a população está irada.

No meu caso, tem mais um agravante. Eu tomei posições que considero corretíssimas a favor do Brasil e do povo, mas que o eleitor não aceita. Mas o grave é que eu continuo achando que votei certo.

O senhor acha que errou por tomar essas posições?

Buarque – Do ponto de vista eleitoral, claro que eu errei, mas eu sabia. Se você diz do ponto de vista da nação, do povo, eu não errei. Não errei ao votar a favor do impeachment, porque a presidente tinha cometido crime de responsabilidade. Eu votei pela reforma trabalhista. O Brasil precisa modernizar suas relações entre capital e trabalho. Eu votei pela PEC 95 [teto de gastos], é óbvio que o governo não pode gastar mais do que arrecada, é irresponsabilidade, gera inflação. Do ponto de vista da minha consciência, eu acertei.

O Cristovam Buarque de hoje é diferente do Cristovam Buarque do PT, ministro de Lula?

Buarque – Não, eu era uma voz discordante. Eu defendo a responsabilidade fiscal desde sempre. Defendi também que certas empresas estatais não servem ao público. Eu defendi que essas empresas fossem colocadas a serviço do público ou vendidas. O PT foi contra o Plano Real e eu fui a favor.

Como imagina os próximos anos no Congresso?

Buarque – O Senado, a Câmara, as famílias, os sindicatos, todos nós vamos ter anos muito difíceis. Temo que o processo leve a duas alternativas que o Brasil sempre utiliza: autoritarismo ou inflação. Autoritarismo para unificar na marra ou inflação para enganar todo mundo.

Quem o senhor vai apoiar no segundo turno à Presidência?

Buarque – Não quero dizer com quem ainda, mas eu não vou ajudar a abrir as portas para o autoritarismo e a intolerância. Também não quero abrir as portas para o populismo e o fim da Lava Jato.

Felizmente, ainda temos algumas semanas. Com a democracia, qualquer governo que acabe com Lava Jato e traga populismo, a gente tira no voto depois. Mas, se for o autoritarismo, a gente não sabe se consegue. Eu fiquei nove anos no exílio, tive irmão preso, muitos amigos mortos. Eu não vou ajudar a voltar com isso.

O que o ex-presidente Lula representa?

Buarque – Ele é o maior líder da história do Brasil, talvez tirando Getúlio Vargas, mas um líder que perdeu a capacidade de entender a história. É um líder do presente, não é um estadista, que olha lá na frente, e nem pede sacrifício. Oferece tudo para todo mundo. É o velho estilo do líder populista.

Concorda com a avaliação do PT de que a prisão de Lula é injusta?

Buarque – Eu não posso dizer que foi injusta se eu respeito a ordem estabelecida. Se eu disser isso, estarei justificando o autoritarismo para fechar a Justiça. Temos que respeitar a Justiça.

Eu lamento que a Justiça tenha sido obrigada a fazer isso. Até porque, num momento em que o país está se desagregando, não ter um líder como o Lula faz falta. Eu não sei se a gente vai poder encontrar o caminho sem pelo menos ter uma linha telefônica para Curitiba.

Ministro da Educação de Lula por um ano, antes de ser demitido, o senhor teve tempo de fazer o que gostaria?

Buarque – Claro que não, tive 12 meses. Sair foi uma frustração com alívio. Um “frustralívio”. Eu ia conseguir a erradicação do analfabetismo em cinco ou seis anos. O ministro que entrou no meu lugar parou o programa. Eu ia começar a fazer a federalização da educação. O ministro seguinte parou. Eles terminaram fazendo o ProUni, que eu mandei para a Casa Civil com o nome de Programa de Apoio ao Estudante.

Isso é uma crítica também a Fernando Haddad, que foi ministro a maior parte do governo do PT?

Buarque – Não, eu estou criticando o presidente. Ministro não tem poder. Para quem ficou sete anos de ministro, ele não foi ruim para aumentar as universidades, mas as universidades estão em péssima qualidade. Ele não foi ruim para colocar camadas mais pobres na universidade, mas isso é o mínimo. Para a educação de base, o ministro Haddad não foi bom.

O senhor diz que o ProUni foi elaborado e apresentado por você, mas Haddad é apresentado como o pai do programa.

Buarque – A esposa dele, que trabalhou comigo, trouxe a ideia para o ministério e nós elaboramos o projeto. Pode-se dizer que veio do Haddad. Eu elaborei o projeto, enviei à Casa Civil e ficou lá com o José Dirceu sentado em cima. Ele levou mais mérito porque ele que executou, quem dá ideia não fica com o mérito. O mérito é de quem executa.

Quais seus projetos a partir de agora?

Buarque – O povo me deu o direito de deixar de ser senador antes de um infarto fulminante, antes de um câncer rápido e antes de outras doenças que me levassem. Não vou aceitar cargo no Distrito Federal nem no Brasil. Vou voltar a fazer o que sempre fiz: escrever, fazer palestra, continuar na luta em outra trincheira.

Imagem: Reprodução

Com informações da Folhapress.

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