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O legado de Stan Lee

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A maioria o conhecia como o velhinho que fazia aparições nos filmes inspirados nos quadrinhos da Marvel, sempre arrancando risos dos  iniciados (e, mais tarde, dos nem tanto). Genericamente, ele é visto como o arquiteto da gigantesca mitologia da Marvel, ainda que muitos o considerem um aproveitador que “atropelou” co-autores como Jack Kirby e Steve Ditko (falecido há poucos dias). Mas, afinal, quem era Stanley Martin Lieber, morto nesta segunda-feira aos 95 anos? Grande parte dos obituários o chamou de “gênio”, mas o termo visionário talvez seja mais adequado. De fato, como escritor, ele foi possivelmente o grande arquiteto do universo Marvel (e, num documentário dos anos 80, ele não se furtou em aparecer como deus dos quadrinhos), mas a participação dos parceiros desenhistas também foi decisiva, especialmente Jack Kirby.

Mas quem tinha a vocação para showman era Stan Lee, nome que ele reservou para sua carreira nas HQs, já que pretendia reservar seu nome real para a literatura “séria”. Como sabemos, isso nunca aconteceu. Sua carreira começou aos 19 anos, na Timely Comics (que viraria Marvel nos anos 60), e já de cara tralhou com Kirby em histórias do Capitão América. Se o roteirista original do herói era Joe Simon, foi Lee quem usou o escudo como arma de arremesso pela primeira vez. Após servir no front doméstico durante a II Guerra Mundial, Stan retomou a carreira nos quadrinhos, mas ao logo dos anos seguintes foi ficando cada vez mais frustrado.

Na virada dos na os 50 para 60, a DC liderava o mercado, graças principalmente à Liga da Justiça, que reunia seus maiores super-heróis (a poderosa Mulher-Maravilha era a secretária do grupo). O editor-chefe da Marvel, Martin Goodman, encomendou a Stan Lee um time similar e o escritor, incentivado pela mulher, Joan, resolveu criar algo inteiramente novo, e não apenas um cópia, como era comum até então. Surgia o Quarteto Fantástico, formado por pessoas comuns que o acaso transformou em seres superpoderosos, e que nem identidade secreta tinha. Se o Senhor Fantástico e o Tocha Humana tinham habilidades de outros personagens como o Homem-Borracha e o Tocha Humana original (ambos surgidos na Segunda Guerra Mundial) , a Moça Invisível e, especialmente, o Coisa, tinham poderes únicos. Nesses novos heróis, o lado humano se destacava, eram atormentados (especialmente o Coisa) e brigavam entre si, como uma família de verdade.

A maior complexidade dos personagens e histórias da Marvel fizeram com que seus títulos passassem a circular até nos campi universitários. Stan Lee se tornou uma celebridade no circuito de palestras e convenções, ao mesmo tempo que começou a articular a transposição de suas criações para outras mídias. Começou de uma forma meio tosca, com os chamados “desenhos desanimados”, que adaptavam as artes originais de Jack Kirby em programas quase sem recursos, mas que no Brasil ajudaram a introduzir o universo Marvel para a criançada. Depois de décadas de tentativas frustradas de levar os heróis às telas grande e pequena – com alguns momentos marcantes, como o seriado Hulk nos anos 70 – apenas com a estreia de “X-Men” nos cinemas, em 2000, o sonho começou a se tornar realidade. Dois anos depois, sua criação mais famosa, o “Homem-Aranha”, estreou na tela grande em grande estilo, e parecia que Lee tinha atingido seu objetivo de se tornar respeitável. Mal sabia ele. Em 2008, o Marvel Studio estreou “Homem de Ferro”, e além de fazer parte da Casa das Ideias, responsável por dar coerência ao que passou a  chamar Marvel Cinematic Universe (MCU), ele viu sua obra dominar indústria do cinema e a cultura pop em geral. Sua figura se tornou uma marca tão importante quanto o logo na abertura dos filmes, de forma similar aos cameos de Alfred Hitchcock.

À parte todos os problemas que enfrentou no final da vida– a morte de sua esposa por mais de 70 anos, acusações de abuso e crise financeira – Stan Lee sabia que havia chegado mais longe do que jamais havia imaginado quando criou pseudônimo para resguardar sua identidade secreta. Há quem critique o domínio dos super-heróis no cinema contemporâneo, um“modismo” que dura uma década, mas, em tempos de streaming, o universo que ele criou pode ter salvo Hollywood de uma crise semelhante às dos surgimentos da televisão e do home vídeo. Temas ainda hoje importantes,como diversidade e preconceito racial, foram abordados há 50 anos nas revistas da Marvel, e é significativo que a maior bilheteria obtida por um filme estrelado por negros tenha sido a partir de uma criação de Stan Lee, “Pantera Negra”. Seja na fantasia ou em seus reflexos no mundo real, seu legado permanecerá por tanto tempo quanto a imaginação humana. Excelsior!

Imagens: reprodução

 

 

 

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