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Mais de 50 palestinos mortos em protestos contra transferência da embaixada dos EUA para Jerusalém; entenda

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Os Estados Unidos inauguraram nesta segunda-feira sua embaixada em Jerusalém, uma medida elogiada por Israel, mas duramente criticada por palestinos, que há várias semanas protestam na fronteira com a Faixa de Gaza.

Autoridades palestinas dizem que forças israelenses mataram pelo menos 55 manifestantes – entre eles crianças, segundo o ministério da Saúde palestino – e deixaram 2,7 mil feridos nos piores confrontos registrados na região desde 2014.

Em um comunicado, as Forças de Defesa israelenses disseram que 40 mil palestinos estavam participando de “atos de vandalismo violentos” em 13 localidades ao longo da cerca de segurança da Faixa de Gaza.

Também declararam que militares do país mataram três pessoas que tentavam colocar explosivos próximo da cerca em Rafah e que aeronaves e tanques atacaram posições militares do Hamas no norte de Gaza. Ainda houve confrontos entre a polícia israelense e manifestantes que portavam bandeiras palestinas do lado de fora da nova embaixada. Diversos manifestantes foram detidos.

Os palestinos reivindicam Jerusalém Oriental como sua futura capital e veem a medida como sinal de apoio dos Estados Unidos à visão do governo de Israel, que considera a cidade como sua capital “eterna e indivisível”.

O presidente americano, Donald Trump, celebrou a medida em um pronunciamento por videoconferência na cerimônia inaugural. Ele disse ser algo que “deveria ter ocorrido há tempos”.

“Israel é uma nação soberana que tem o direito de determinar qual é sua capital, mas nós falhamos por muito tempo em reconhecer o óbvio”, declarou Trump, segundo o qual os Estados Unidos continuam “comprometidos em viabilizar um acordo de paz duradouro”.

A decisão de Trump no ano passado de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel não apenas rompeu com décadas de neutralidade americana no tema como foi criticada por vários países. Veja abaixo três questões chave sobre essa polêmica.

Por que a mudança de embaixada para Jerusalém atrai tanta controvérsia?

O status de Jerusalém está no coração do conflito entre israelenses e palestinos – ambos veem a cidade como sagrada e a reivindicam como capital.

A cidade foi dividida ao final da guerra árabe-israelense de 1948, iniciada após a criação do Estado de Israel. Na ocasião, tropas de Egito, Jordânia, Iraque, Síria e Líbano invadiram territórios contíguos ao concedido aos judeus para pressionar contra sua instalação na região.

Os israelenses conseguiram defender sua posição e, após assinaturas de armistícios com os países invasores, passaram a controlar Jerusalém Ocidental, enquanto a parte Oriental – que inclui algumas áreas da cidade antiga e importantes localidades sagradas para judeus, cristãos e muçulmanos – ficou sob controle da Jordânia.

Cartaz escrito "Trump faz Israel grande" na porta do consuladoDireito de imagemBBC SPORT
Image captionO consulado dos EUA em Jerusalém funcionará, provisoriamente, também como embaixada

Israel assumiu o controle sobre a cidade inteira em 1967, após a Guerra dos Seis Dias. O conflito, vencido pelos israelenses, começou quando forças da Síria recrudesceram uma campanha de bombardeio contra vilas de Israel nas colinas do Golã.

Após uma reação israelense, o Egito, aliado sírio, estacionou tropas ameaçando Israel na fronteira do Sinai. As forças israelenses conseguiram vencer o confronto, repelindo tanto as tropas sírias no Golã quanto a ofensiva egípcia no Sinai.

Desde então, o país construiu diversos assentamentos, onde vivem 200 mil judeus, em Jerusalém Oriental, considerados ilegais sob a lei internacional, ainda que Israel refute isso.

Em 1980, Israel aprovou uma lei anexando Jerusalém Oriental, uma medida também vista internacionalmente, inclusive pela Organização das Nações Unidas (ONU), como ilegal. Na época, vários países transferiram suas embaixadas em Israel para Tel Aviv.

A soberania israelense sobre Jerusalém não é reconhecida internacionalmente e, de acordo com o tratado firmado com palestinos em 1993, a situação final de Jerusalém deve ser discutida nos últimos estágios das negociações de paz.

Por isso, o anúncio de Trump no ano passado, praticamente reconhecendo Jerusalém como capital única de Israel, deixou vários países preocupados por comprometer a neutralidade americana na mediação do conflito.

Desde o anúncio de Trump, que foi condenado em uma resolução da ONU (128 países votaram a favor, 9 contra e 35 se abstiveram), 10 países disseram estar planejando fazer o mesmo, entre eles Guatemala, Romênia e República Tcheca. A União Europeia se manifestou várias vezes contra a mudança.

Como estão reagindo israelenses e palestinos?

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, conclamou “todos os países a se unirem aos EUA para transferir suas embaixadas para Jerusalém”.

Por sua vez, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, descreveu a decisão de Trump como o “tapa na cara do século” e disse que os Estados Unidos não são mais considerados por ele como um “mediador do conflito no Oriente Médio”. Ele ainda condenou o que chamou de um “massacre” contra seu povo e decretou três dias de luto pela morte dos manifestantes nesta segunda-feira.

Abul Gheit, chefe da Liga Árabe, organização que reúne representantes de seis países árabes – Egito, Líbano, Arábia Saudita, Jordânia, Iraque e Síria -, disse ser “vergonhoso ver países participando junto com os Estados Unidos e Israel na celebração da mudança da embaixada para uma Jerusalém ocupada, em uma clara e grave violação da lei internacional”.

A tensão na fronteira com a Faixa de Gaza esquentou nesta segunda-feira. A poucas horas da inaguração, veio o anúncio de autoridades palestinas de que palestinos foram mortos por soldados israelenses. Ele se juntam aos mais de 40 palestinos que haviam sido mortos nas últimas semanas.

Manifestante palestinoDireito de imagemEPA
Image captionPalestinos protestam há seis semanas contra o que dizem ser uma ocupação por Israel de um terrotório seu

Palestinos lançaram pedras e objetos incendiários em direção às forças israelenses durante os protestos contra a medida, enquanto militares de Israel empregaram atiradores de elite para conter os manifestantes. Os protestos fazem parte da chamada “Grande Marcha de retorno”, uma manifestação realizada ao longo de seis semanas e liderada por autoridades islâmicas em Gaza.

Os palestinos vêm organizando esse protesto antes do que chamam de Nakba, ou Catástrofe, data que marca quando centenas de milhares de seus civis tiveram de deixar suas casas após a fundação do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, que marcou o fim do mandato britânico na Palestina – sob determinação da Liga das Nações, o Reino Unido passou a administrar boa parte da região em 1923.

A organização militante palestina Hamas vinha dizendo que os protestos aumentariam antes do Nakba. A expectativa é de que haja uma manifestação de proporções ainda maiores nesta terça, quando os palestinos devem começar a enterrar os mortos desta segunda-feira, explica Feras Kilani, repórter do serviço da BBC em árabe que está acompanhando os atos in loco.

“Os palestinos virão aqui e, com toda essa raiva acumulada, tentarão cruzar a fronteira para o que consideram ser sua terra, que eles não enxergam como Israel, mas como a Palestina”, diz Kilani. “Deve ser maior e mais sangrento que a segunda-feira.”

O alto comissário das Nações Unidas para Direitos Humanos, Zeid Ra’ad al-Hussein, acusou Israel de usar “força em excessiva” e condenou Israel pela “chocante morte de dezenas de pessoas e centenas de feridos”.

A Alemanha disse que Israel tem o direito de se defender, mas que deveria fazê-lo de forma proporcional. Já a chefe de política externa da União Europeia, Federica Mogherini, disse esperar “que todos atuem com o “máximo de comedimento para evitar a perda de mais vidas”.

Ivanka Trump, David Friedman e Jared Kushner no aeroporto Ben Gurion International, perto de Tel AvivDireito de imagemREUTERS
Image captionIvanka Trump, filha do presidente americano, esteve presente na cerimônia junto com o marido

Israel afirma agir legitimamente para proteger seus civis em comunidades próximas da fronteira de militantes que tentam atravessar os limites territoriais. Ao comentar sobre os confrontos, Netanyahu declarou que “qualquer país tem o direito de defender suas fronteiras”. “O Hamas diz claramente que sua intenção é destruir Israel e envia milhares para ultrapassar a fronteira com essa finalidade.”

O que foi inaugurado e quem participou da cerimônia?

Uma pequena embaixada provisória começou a funcionar nesta segunda dentro do prédio do consulado dos Estados Unidos em Jerusalém. Uma instalação maior será escolhida posteriormente quando o restante da embaixada se mudar de Tel Aviv para lá. A cerimônia foi antecipada para coincidir com o aniversário de 70 anos do Estado de Israel.

A filha de Trump, Ivanka, e seu marido, Jared Kushner, ambos conselheiros do presidente americano, estavam presentes na ocasião, assim como o secretário do Tesouro Steven Mnuchin, e o subsecretário de Estado John Sulivan.

Após Ivanka inaugurar a embaixada, Kushner disse em um pronunciamento: “Quando o presidente Trump faz uma promessa, ele a mantém. Mostramos ao mundo que é possível confiar nos Estados Unidos. Estamos ao lado de nossos amigos e aliados”. Kushner também fez referência ao fato dos Estados Unidos ter se retirado do “perigoso, falho e unilateral acordo nuclear com o Irã”, sendo aplaudido pelos presentes.

Por sua vez, Netanyahu disse: “Que dia glorioso. Lembrem-se deste momento. Isso é histórico. Presidente Trump, ao reconhecer a história, você fez história. Todos nós estamos profundamente agradecidos”.

A inauguração da embaixada é o ápice de uma das melhores semanas para o premiê em sua vida política, avalia Jeremy Bowen, editor da BBC para o Oriente Médio.

“Primeiro, Trump manteve sua promessa de se retirar do acordo com o Irã. Agora, está mudando sua embaixada. Essa medida foi rejeitada pelos principais aliados de Israel e dos Estados Unidos, com milhares de palestinos protestando em Gaza”, disse Bowen.

“A inauguração da embaixada é algo bom para o governo de Netanyahu, para a base de Trump e satisfaz a maioria dos israelenses, mas não há evidências de isso seja bom para paz, como afirmou o premiê.” Com informações da BBC

Imagem de capa:EPA

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