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IURD, o pastor e a cocaína da conversão

Antes de transcrever o diálogo entre o pastor e o viciado[1], as primeiras perguntas que me vieram ao espírito foram: “De onde veio a cocaína?

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Em dias de desgoverno, em que escândalos pessoais e carnavalescos terminam na conta do Twitter do presidente da República, algo passou desapercebido de sua grande eminência: a carreirinha de pó oferecida por um pastor da IURD a um recém convertido.

O pastor Adriano Moraes, da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus – mesmo?) em intervenção dentro de um programa chamado “Balanço Geral”, entra no ar para promover um “ritual de cura”. Nele, exibe um usuário de droga; após a “cura”, no intuito de testá-lo – e exibir seus poderes sobrenaturais ao grande público -, prepara uma carreira de cocaína ao recém convertido e curado cidadão.

Antes de transcrever o diálogo entre o pastor e o viciado[1], as primeiras perguntas que me vieram ao espírito foram: “De onde veio a cocaína? O pastor diz durante o ritual que a cocaína lhe fora entrega para jogar fora; mas por teria ele tal incumbência? Quem lhe pediu para jogar fora? Onde o pastor descarta a cocaína? Nas próprias ventas?” Este é um daqueles pequenos rituais que a polícia, se vivêssemos em um Estado laico, certamente se ocuparia.

Por fim, permitam-me me ainda corrigir a Introdução à Crítica da filosofia do direito de Hegel, de Marx, em que este sintetiza a célebre analogia já utilizada por outros autores do século XVIII, qual seja: “A religião é o ópio do povo.”. Portanto, vá lá a errata: “A religião é a cocaína do povo.” Ô glória!

Transcrição:

Pastor: Qual é o seu nome?

Viciado: Anderson.

Pastor: Você mora onde?

Viciado: (fissurado) Casa Verde.

Pastor: Casa Verde?

Viciado: Sim senhor.

Pastor: Você sofre com o vício há quanto tempo?

Viciado: (fissuradíssimo, agitando as mãos) Quatro anos.

Pastor: E sua família, como é que tá?

Viciado: Tá destruída.

Pastor: Você tem vício do quê?

Viciado: Cocaína, maconha e lança… e bebida.

Pastor: O último dia que você cheirou foi quando?

Viciado: Anteontem.

Pastor: Anteontem?

Viciado: Anteontem.

Pastor: Você tá louco pra cheirar?

Viciado: (passa a mão pela cabeça, pressiona o nariz, fissurado) Bastante.

Pastor: (entendido) Mordendo de vontade cheirar?

Viciado: (agitado) Eu queria sair daqui correndo pra pegar um pó ali. Ahhhn!

Pastor: Venha aqui. Olha pra mim. Se hoje, você não sair daqui com nojo da cocaína, eu vou comer a Bíblia(!!!). Eu vou lhe ajudar a vencer. (Para a produção: “Cadê a cocaína que entregaram pra gente JOGAR FORA (enfatiza)?” Antes de jogar, a gente faz aqui um teste. (leva a cocaína ao nariz e cheira). Volta-se para o viciado e diz: Vê se é cocaína.

Viciado: (cheira a cocaína que o pastor encosta em seu nariz) É, é. (fissuradíssimo, louco)

Pastor: Quando você sente o cheiro da vontade?

Viciado: (morde os lábios, passa a mão pelo rosto) Muita vontade.

Pastor: Muita vontade? O que você já perdeu para a cocaína?

Viciado: Muito; dignidade, respeito.

Pastor: Uma noite assim, que você estava sem dinheiro, o que você fez para arrumar cocaína?

Viciado: Vendi meus cinco celulares, dei minha roupa todinha.

Pastor: Mas você deu um jeito para usar cocaína.

Viciado: (agitadíssimo) Dei.

Pastor: Está muito com vontade?

Viciado: (agitado)

Pastor: (coloca a cocaína de lado) Vou deixar aqui, pra ninguém mexer. Ninguém trocar.

VOIX OFF: Ouça agora o que acontece após o tratamento (que o público não vê, não sabe como funciona. Detalhe: pastor e viciado permanecem com as mesmas roupas, portanto, deduz-se que o tratamento seja instantâneo)

Pastor: Como está se sentindo?

Viciado: Bem, leve.

Pastor: (apanha a cocaína e mostra-a) Aqui a cocaína que entregaram pra mim (sic) fazer um teste, quer dizer, pra jogar, mas antes de jogar a gente faz o teste. (volta-se para o viciado) Sente o cheiro e me fala o que acontece.

Viciado: (antes mesmo de o pastor se aproximar dele com a cocaína, já simula ânsia de vômito, nojo da droga, leva uma das mãos à boca)

Pastor: O que acontece?

Viciado: (inaudível)… estômago (contorce-se diante do pastor, simula ânsia de vômito)

Pastor: Só de ver?

Viciado: Só de ver. Ai…

(palmas em off)

Pastor: Continua firme aqui, não para não.

Interrupção do vídeo disponível no Youtube. A foto em que o pastor faz a carreira de pó para o cidadão foi ao ar, segundo a reportagem.

Isto posto, leitor, como concluir, senão pedindo ao Altíssimo que mova céus e terra e que, um dia, charlatães e estelionatários religiosos sejam obrigados a pagar impostos pelo dinheiro que arrecadam de pessoas incautas e desavisadas? É certo que a fé será menor, bem menor, assim como os milagres.

 

 

[1] https://youtu.be/k1qCIAw_3hA. Você também pode conferir reportagem em: https://www.bol.uol.com.br/entretenimento/2019/03/13/na-record-pastor-da-iurd-coloca-cocaina-em-ritual-de-cura-para-viciado.htm

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