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Itapetininga: Falta de acessibilidade faz cadeirante promover campanha na web para comprar carro adaptado

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Jovem de 23 anos sofre de mielomeningocele e pretende arrecadar R$ 25 mil. Moradora de Itapetininga (SP) reclama das calçadas e do transporte coletivo: ‘Já fui carregada por amigos para entrar no ônibus”.

A falta de acessibilidade nas ruas, calçadas e no transporte coletivo, além do sonho de ser independente, foram motivos que fizeram com que a cadeirante de 23 anos Janaína Rodrigues de Oliveira, moradora de Itapetininga (SP), mobilizasse uma campanha na web para arrecadar dinheiro e poder comprar um carro adaptado.

Ao G1, a estudante do curso técnico de administração contou que a família não tem condições de comprar um veículo e, por isso, depende do transporte coletivo da cidade.

Com cinco irmãos, a mãe desempregada e o pai que trabalha como pedreiro, ter um carro sempre foi algo distante.

“Eu preciso muito. Será incrível conseguir isso, porque me sentiria um pouco mais normal e é meu maior sonho. Aqui é terrível. No meu bairro não tem nenhuma acessibilidade. Calçadas não existem. Meses atrás, por exemplo, eu caí com tudo em uma rua para ir até o ponto de ônibus”, conta.

De acordo com Janaína, ela pretende arrecadar com a vaquinha online, que denominou de ‘Me ajude a ir longe com sua doação’, pelo menos metade do valor do carro adaptado, que custa em torno de R$ 55 mil.

“Eu sabia que teria muito apoio, mas mesmo assim haveria pessoas criticando e achei que eu não tinha psicológico pra isso. Como a campanha é de um ano para arrecadar R$ 25 mil, eu pretendo arrumar um emprego para poder pagar o resto das parcelas, já que um carro adaptado sai no valor de R$ 55 mil”, diz.

‘Quero ser independente’

Segundo Janaína, ela diagnosticada com mielomeningocele, que é um problema congênito na coluna devido à deficiência de ácido fólico durante a gestação. Com isso, ela nasceu com a coluna aberta e precisou fazer cirurgia para fechar.

“Fiz algumas cirurgias para corrigir más formações no pé. Com isso, andei até meus 11 anos com ajuda de próteses, mas parei porque eu não aguentei por ter engordado um pouco e ter perdido as forças nas pernas.”

Janaína conta que os pais nunca tiveram carro e todo o tratamento de saúde foi feito pelo Sistema Único de Saúde.

“A consequência é ter que andar na cadeira mesmo. Ter que fazer xixi por sonda, ser dependente para ir em todos os lugares. Quero muito ser independente. Não tem como ser totalmente, mas a gente tenta. Claro que a gente se sente deprimido por não ter condições de comprar um carro, mas esse sonho é possível”, diz.

Dificuldades

A jovem conta que fez curso técnico em recursos humanos em 2017 e atualmente estuda técnico em administração com bolsa de 100%.

A rotina começa às 6h. Ela pega o ônibus às 7h e chega no curso às 8h. São quatro horas de aula. Logo após, Janaína espera pelo transporte coletivo até às 13h e chega em casa em 30 minutos.

Porém, o que poderia ser simples acaba sendo um desafio, já que muitos ônibus não oferecem acessibilidade, além da falta de rampas nas calçadas.

“A empresa de ônibus público aqui não tem noção nenhuma sobre acessibilidade ou treinamento dos motoristas para ajudar. Não é justo. Existem leis de acessibilidade e ninguém cumpre porque não existem fiscalizações na maioria das empresas. Só tem quando lhes convêm.”

Ela ainda afirma que seus amigos já tiveram que carregá-la várias vezes para subir nos ônibus pela falta de funcionamento do elevador de acesso.

“Eles mandam ônibus que funcionam com chute ou tem que pular no elevador para descer.”

O fotógrafo Lucas Ferreira, amigo de infância de Janaína, foi um deles. Ele ressalta que familiares e amigos tentam fazer com que a jovem se sinta incluída.

“Eu vi tudo que ela passou esses anos todos. Já carreguei ela porque não tinha ônibus adaptado. Sempre tentamos fazer ela se sentir incluída em tudo. Fazer ela sentir que sempre fez parte do grupo. A mobilidade dela depende demais da boa vontade das pessoas e infelizmente quase ninguém tem.”

Com a falta de acessibilidade, a estudante afirma que tem momentos que se sente excluída.

“Me sinto frustrada e excluída. Muitas vezes fiquei para trás nos pontos sem nenhuma explicação. Alguns motoristas são muito legais e me ajudam. Mas não culpo eles e, sim, a empresa.”

Ajuda

Além de atingir a meta, a jovem diz que espera ajudar outros deficientes com essa campanha.

“Se eu conseguir comprar o carro, eu vou atrás dos direitos que foram tirados durante esses anos. Espero poder ajudar as outras pessoas que estão na mesma situação que eu. De alguma forma eu vou tentar ajudar”, afirma.

“As pessoas acham que meu maior sonho seria andar, mas na verdade sei que isso é impossível, o meu maior sonho que é algo realizável, é poder ter minha liberdade e ser mais independente.”

Respostas

Em nota, a empresa responsável pelo transporte coletivo na cidade, Nossa Senhora Aparecida, informou ao G1 que mantém 40 ônibus com elevadores, os quais passam por manutenções constantes por mecânicos e eletricistas especializados.

A empresa também afirma que os motoristas passam por treinamentos para atender portadores de deficiências.

Quanto ao não funcionamento em alguns momentos, a empresa ressalta que acontece por se tratar de aparelhos com dispositivos sensíveis que não avisam quando vão falhar e que podem ocorrer falhas de forma constante e não por falta de manutenção.

Ressaltou que é comum nesses aparelhos um problema repentino que só falham quando são utilizados, sendo impossível a previsão de tal ocorrência.

Já a prefeitura de Itapetininga afirmou, em nota, que estão sendo construídas rampas de acesso às pessoas com deficiência em diversos pontos da cidade.

“As equipes técnicas das secretarias permanecem mapeando os pontos com necessidade da colocação das rampas, bem como fazendo a manutenção das já existentes.”

Com relação aos ônibus do transporte coletivo, a prefeitura esclarece que mantém fiscalização para averiguar possíveis situações que envolvam pessoas com deficiência.

Em caso de reclamação em relação ao transporte coletivo, a Secretaria de Trânsito e Cidadania deve ser acionada para notificar à empresa responsável pelo número (15) 3272-3884.

Imagem: Reprodução /  Janaína Rodrigues de Oliveira/Arquivo pessoal

Com informações do G1

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