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Templo de umbanda é incendiado em Campinas

Redação
Escrito por: Redação

Pai David Ricardo Ribeiro da Silva, Obabu Omolu, diz que o seu templo tem sido alvo de ataques sistemáticos.

Um terreiro de umbanda do Jardim Nova Europa, em Campinas, foi destruído por um incêndio na madrugada desta quarta-feira (18). A suspeita é que uma pedra arremessada contra o telhado da Tenda de Umbanda Vovô Trindade de Aruanda e Cigano Ygor, tenha derrubado uma vela sobre o altar de madeira, fazendo o fogo se alastrar pelo imóvel. Durante o dia, voluntários se uniram para fazer a limpeza da área e retirar o pouco que restou do Templo Tutay. A ocorrência foi registrada no 5º Distrito Policial e a Polícia Civil apura o crime de intolerância religiosa. Representantes do templo organizam uma vaquinha na internet para reconstruir o imóvel e devolvê-lo ao proprietário.
O imóvel estava vazio no momento que o fogo começou, por volta das 5h. Os responsáveis pelo templo foram acionados por vizinhos, que fizeram os primeiros trabalhos de combate às chamas, utilizando mangueiras, até a chegada do Corpo de Bombeiros. Segundo o pai David Ricardo Ribeiro da Silva, o Obabu Omolu, a Polícia Civil e a perícia do Instituto de Criminalística estiveram no local. As investigações preliminares dão conta de que se trata de um incêndio criminoso. Um tijolo foi encontrado sobre o telhado, no ponto onde a telha se partiu. “O tijolo bateu e derrubou a telha, que caiu sobre altar, onde tinha uma vela. O fogo se espalhou por todo o templo. A telha não está queimada, o que indica que não se rompeu pelo calor, mas pelo impacto da pedra”, diz.
O fogo se espalhou rapidamente destruindo imagens do templo, assentamentos africanos trazidos da África, atabaques, cocar de caboclo, além de cadeiras. O prejuízo estimado dos objetos destruídos é de aproximadamente R$ 4 mil. O imóvel também ficou destruído. As paredes foram queimadas e parte do teto cedeu. O prejuízo estrutural do imóvel é de aproximadamente R$ 5 mil. “Não estamos pedindo arrecadação para reestruturação das coisas do templo, mas para tentar restruturar imóvel e devolvê-lo para o proprietário como encontramos porque temos idoneidade. As coisas do templo vamos comprando aos poucos”, disse um adepto.
O Boletim de Ocorrência foi registrado no 5º Distrito Policial e, segundo o delegado Roney de Carvalho Barbosa Lima, uma equipe de investigadores foi ao local para localizar câmeras e convocar testemunhas. O laudo pericial deve sair em até 30 dias. “Apenas a perícia vai poder afirmar se foi criminoso e dependemos do laudo para atestar esse crime. Fora isso, vamos intimar o representante do estabelecimento para ser ouvido”. Logo após o trabalho da perícia, voluntários ajudaram na remoção de escombros, das cinzas e limpeza do espaço.
Caridade
A instituição existe há cerca de três anos e conta com estrutura teológica e corpo eclesiástico trabalhando. Além de atendimento aos frequentadores, o templo religioso faz trabalhos voluntários de doação de alimentos e de roupas para moradores de rua e pessoas necessitadas de maneira geral. “É uma casa que trabalha com caridade e tinha todo um trabalho estruturado. Não sei nem o que vou fazer”, disse Pai David.
“Meu coração está pesado. Estou sem muita esperança porque é um trabalho de três anos que tenho sustentado do meu próprio bolso. É uma casa que não cobra nada de ninguém, não se cobra para fazer atendimento. Quem trabalha na casa contribui para deixá-la em pé. Não sei onde vou encontrar forças para continuar”, disse.
Pai David afirma que o templo já vem sofrendo ataques desde que se mudou para o espaço, há dois meses. “São pedradas no portão, pedradas no telhado. Até acredito que quem fez isso hoje não tinha intenção de incendiar, mas a consequência foi essa”, comentou. Ele ressaltou que a intolerância religiosa está instaurada no Brasil. “Não é só aqui e não é de hoje.” Também reforçou que a umbanda prega o amor e a caridade. “Poucos sabem, mas a umbanda é uma religião cristã que tem Jesus Cristo como seu alvo principal e é o mesmo Jesus Cristo que eles têm, que disse: ‘amai o próximo como a ti mesmo e a Deus sobre todas as coisas.’”
Ele pede para que os intolerantes ponham a mão na consciência. “Que entendam que umbandista também é filho de Jesus Cristo e que umbandista é o próximo, e temos que amar o próximo como a nós mesmos. E se querem tanto seguir a Bíblia, que comecem por este mandamento. Deixa o próximo quieto, com o credo dele, com a fé dele.”
O Pai Joãozinho Galerani, presidente da Associação de Religiosos das Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, disse que os religiosos estão bastante assustados e com medo de sair às ruas. Ele afirmou ainda que as comunidades devem se unir e estudar medidas a serem adotadas.
A comendadora Edna Lourenço, pesquisadora que luta no combate à intolerância religiosa e ao racismo disse que no dia 27 haverá uma audiência de Direitos Humanos no Salão Vermelho da Prefeitura de Campinas onde serão levantadas as denúncias de violência contra as comunidades tradicionais de matriz Africana, que serão encaminhadas ao Ministério Público.
Imagem: Dominique Torquato/AAN
Com informações do Correio Popular

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