Comportamento Vitor Carneiro

Socorro! Me encontro no deserto!

Vitor Carneiro
Escrito por: Vitor Carneiro

Por Vítor Carneiro – Alguns dias atrás, procurando uma estação de rádio para sintonizar me deparei com a seguinte frase de uma música: “O DESERTO QUE ATRAVESSEI NINGUÉM ME VIU PASSAR”. Confesso que a mesma me pegou de surpresa e por alguns instantes comecei a pensar lembrando-me de alguns amigos que estão vivendo exatamente neste lugar: O DESERTO! E o mesmo surge pelo intermédio de doenças, desilusões, divórcios, desemprego, finanças etc. enfim são muitos os desertos.

Não é minha intensão nesta matéria, tentar explicar ou interpretar sobre o objetivo e sentimentos do autor ao compor a letra desta música (Catedral / Zélia Ducan – “Cathedral Song”, da cantora alemã Tanita Tikaram, lançada no ano de 1988). Gostaria apenas de abordar a frase citada, pois a mesma despertou novamente minha atenção sobre o deserto que pode se apresentar como um local de TRISTEZA E SOLIDÃO!

Se por alguns minutos eu pudesse imaginar um deserto eu veria uma vasta área coberta de areia para todos os lados, consigo até imaginar a elevada temperatura que há nesse lugar e percebo tempestades de areia ao longe e que se aproximam cada vez mais. Porém, quando trago essa imaginação para os meus desertos existenciais eu não consigo apenas imaginar, mas eu revivo as minhas próprias experiências e de amigos muito próximos e percebo um intenso cansaço e desespero por não conseguir contemplar o refrigério. Anos atrás ouvi a seguinte frase: “Passamos no deserto para perceber as florestas que nos esquecemos de contemplar em nossa caminhada.” Uau que frase!! Pensei assim que a ouvi. Mas só fez sentido quando eu cheguei ao meu próprio deserto. E sempre que penso nos meus desertos e nos das pessoas que convivem comigo, eu percebo uma luta interna muito maior daquela que seriamos capazes de lutar fisicamente, a vontade de agilizar o tempo e chegar naquilo que conhecemos como refrigério se torna cada vez maior e gera cada vez mais um cansaço emocional, a angústia toma conta dos dias, a tristeza corrói a alma e nos entregamos às lágrimas no intuito de diminuir o sofrimento.

Sentimo-nos totalmente perdidos e isolados, sobre grande pressão e tensão, onde nada, absolutamente nada, parece dar certo. Um lugar sem saída e grande demais para ser percorrido. Muitos quando passam por este momento que envolve angústia e sofrimento podem concluir que perderam o seu referencial quando, por algum motivo, tudo o que acreditávamos sobre nós mesmos desmorona e para piorar, muitas vezes constatamos que até aqueles outrora considerados nossos grandes “amigos”, não tiveram perseverança para nos acompanhar nesta mais dura jornada das nossas vidas.

É difícil e desesperador viver uma situação de muita luta e com pouca ou nenhuma esperança. Uma vida de desânimo e sem rumo, seguindo em qualquer direção sem nem imaginar para onde estamos indo. Olhar para os lados e não achar uma solução imediata e ter que seguir em frente com ou sem um objetivo de vida, enfrentando tudo em silêncio por acreditar que se procurarmos ajuda poderemos ser vistos como uma pessoa problemática e fraca, já que todos sempre passam por desertos e mesmo que sejam parecidos, vivemos eles de forma diferente, nossos desertos são pessoais e intransponíveis.

“ESTRANHA E SÓ – NEM PUDE VER QUE O CÉU É MAIOR”

O ESTRANHO é o quanto que podemos nos sentir só, mesmo que rodeados entre milhares de pessoas e mais ESTRANHO ainda é entre tantos conhecidos, como diz a música – “Estranha e só”. Há, SOLIDÃO é um sentimento que atualmente afeta milhões de pessoas que apesar de tecnologicamente próximas de qualquer outra do planeta, ao mesmo tempo estão sós, diante de um APARELHO que naquele momento as conecta ao mundo através da internet e, certamente há uma enorme distância entre nós e as pessoas e quando precisarmos talvez nunca estarão presentes. Seres humanos nunca se completarão a distância!

Enfrentar o deserto sozinhos pode aumentar o sofrimento e tardar ainda mais em se livrar dele. Pode limitar nossa fé impedindo-nos de olhar para Cristo que é o autor e consumador da nossa fé (Hebreus 12.2). Dialogar com Deus e compartilhar com pessoas que nos amam de verdade é uma das melhores atitudes, pois poderão nos ajudar a encontrar a melhor saída. É exatamente com elas que devemos conversar e abrir nosso coração!

Como já mencionei em textos anteriores, hoje as pessoas infelizmente estão desenraizadas e desconectadas do CRIADOR que é a maior expressão de vitória sobre os maiores desertos da vida! Ninguém entende melhor sobre a vida do que Deus, mesmo que os homens a cada dia tentem fazê-lo.

Bem, se você estiver atravessando o deserto, só tem um jeito de sobreviver: Confie em Deus, compartilhe com aqueles que te amam e… continue andando, andando e andando. Reconheça os sinais de alerta e os cuidados pessoais que deverá ter, não se entregue, não fique derrubado, não se iluda e mantenha o foco.

Não pare! É deste lugar que Deus quer nos livrar!

Muitas vezes coisas que antes achávamos urgentes perdem os sentidos e são abandonadas e esquecidas quando passamos por esses momentos. O deserto sempre nos ensina algo grande e incalculável, quando nos comparamos com os momentos que estávamos fora dele. Veja bem! Como poderíamos dar valor à água se a temos em abundância? Apenas quando estivermos sedentos. Não é mesmo? Enfim, valorizamos tudo quando estamos fora de nossa zona de conforto e passando por nossos desertos e buscando um rumo para a nossa existência, que sempre se adapta e evolui.

As Sagradas Escrituras, no livro do profeta Isaias capítulo 35 dos versículos um ao sete, nos revelam algo extraordinário a respeito do caráter de Deus e da sua capacidade de transformar lugares improdutivos e áridos, como o DESERTO, em um lugar cheio de vida e esperança:

“O deserto se alegrará, e crescerão flores nas terras secas; cheio de flores, o deserto cantará de alegria… Levem essas boas notícias para dar ânimo e vigor aos que estão fracos e desanimados. Digam aos desanimados: “Não tenham medo; animem-se, pois o nosso Deus está aqui…” Pois fontes brotarão no deserto, e rios correrão pelas terras secas. A areia quente do deserto virará um lago, e haverá muitas fontes nas terras secas…!”

Um lugar árido e solitário, onde estamos completamente vulneráveis, o deserto é inevitável e todos passam por ele. Processo importante para nossa maturidade! “…e o deserto se transforme em campo fértil, e o campo fértil pareça uma floresta” (Isaías 32.15). Há, e o Oásis ainda é deserto!

Como alguém cresce e amadurece em um lugar como esse?

Foi no período do deserto que Jesus reafirmou a identidade dele e seguiu livre para realizar sua missão. Não precisou usar nenhum artifício para se autopromover. Foi livre para fazer o que tinha de fazer, assumir a cruz e, no fim, morrer. O deserto nos liberta dos falsos amuletos, das mentiras e ilusões que nos fazem pessoas controladoras e manipuladoras. Rompe com a falsa sensação de que temos controle sobre o nosso destino. O deserto nos torna pessoas mais verdadeiras, livres, e mais conscientes de nossa total dependência de Deus. A verdadeira liberdade e maturidade nasce do deserto.

“O caminho que se faz no deserto tem dois percursos básicos: abandonar o escravo que vive em você, [aprendendo a enfrentar as suas limitações e fraquezas] ou morrer [se tornar um andarilho perdido em sua própria existência].”

Superação, maturidade e alegria é para aquele que vai até o fim no seu deserto ao atravessar o seu deserto!

Agradeço mais uma vez a colaboração de Juliana Aguiar, Psicóloga, grande amiga e irmã, que além de revisar o texto contribuiu com profundas reflexões.

Imagens: Reprodução

Sobre o autor

Vitor Carneiro

Vitor Carneiro

Vítor Carneiro, é pastor e palestrante.

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