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Sátira à sociedade moderna, série ‘Bojack Horseman’ é protagonizada por equino desencantado e alcoólatra

Redação
Escrito por: Redação

Bojack Horseman encontrou o fundo do poço. Ali, sozinho, desesperado, no escuro, decidiu sumir. A cada fim de temporada, o protagonista que dá nome à animação da Netflix atualizava o significado da expressão. Afundava-se, cada mais solitário, em um ciclo vicioso. Machucava os próximos, pois era incapaz de se sentir feliz. Entupia-se de álcool e festas porque parecia ser impossível sorrir. Quebrado e desfazendo daqueles que estavam ao seu redor, Bojack preferiu o exílio. A partir desse ponto, o texto contém spoilers a respeito da quarta temporada de Bojack Horseman.

Se, de certa forma, Bojack agora retorna – sim, amigos, ele volta, embora não apareça no primeiro episódio –, o personagem nunca mais será o mesmo. O que Bojack Horseman, o seriado, fez foi abrir a porteira para que seus personagens se desenvolvessem sem a ligação direta com o cavalo/ator.

ABSURDO No mundo surreal no qual humanos e animais convivem harmonicamente, a sátira da sociedade norte-americana inebriada pela cultura das celebridades é tão real que se esquece de que o protagonista é um cavalo humanoide. Tudo beira o absurdo – mas é impressionantemente pés no chão.

A Netflix talvez não saiba, mas está, com Bojack Horseman, libertando-se para propor narrativas adultas com animações como não se vê na TV da atualidade. E, em sua quarta temporada, escancara as portas da imaginação para que o storytelling seja feito das formas mais estrambólicas. Pode-se partir de um futuro imaginário, em um monólogo interno na cabeça de Bojack, ou com saltos temporais em uma viagem pelas lembranças esfaceladas de um personagem com demência senil. De todas as formas, o arco percorrido pelos personagens é mais profundo do que foi visto até então.

Netflix/reprodução
Todd busca se autoafirmar procurando a aprovação alheia (foto: Netflix/reprodução)

Com o distanciamento do protagonista, há espaço para que se aprofunde até mesmo naqueles que víamos à superfície. Todd, dublado por Aaron Paul (Breaking bad), é o principal oposto de Bojack. Ambos são incapazes de sentir felicidade e a buscam de outra forma. Bojack destrói o que há ao redor, Todd destrói a si mesmo para se abastecer dos sorrisos nos olhos dos outros. Todd se encontrou como assexual, mas ainda busca espaço para ser quem é.

Netflix/reprodução
Workaholic, Carolyn encara o dilema da maternidade (foto: Netflix/reprodução)

ESTRELAS As personagens femininas são as estrelas aqui. Bojack Horseman é a representação satírica mais real da sociedade contemporânea na TV – e isso, muitas vezes, dói. Três gerações de mulheres, Beatrice Horseman (mãe de BoJack), Princess Carolyn (empresária de meia idade) e Diane Nguyen (jovem escritora), escancaram o que o patriarcado é capaz de fazer com quem está no lado subjugado.

Beatrice fugiu do controle do pai e, num desengano, engravidou de um jovem escritor. Saiu de uma relação abusiva para se colocar em outra – no fim, descontava em Bojack a frustração pela vida que lhe foi tirada.
Carolyn, workaholic até então, percebe que seu tempo de ser mãe está no fim. Sofre, rodeada por homens, as dores da perda de uma nova gravidez. Afunda-se, sozinha, por afastar quem tentava lhe dar um abraço.
Por fim, Diane chega ao quarto ano da série casada com Mr. Peanutbutter, o labrador/humano. Seguiu os passos que sempre considerou necessários – o casamento, a casa perfeita e tudo o mais. Chega ao fim do 12º episódio entendendo o que lhe fazia mal: viver a vida que não queria.

Bojack Horseman, por sua vez, percebe, aos poucos, a felicidade se aproximar. O amor fraterno tem espaço. Como numa balança em desequilíbrio, o peso nos ombros das coadjuvantes femininas as leva para baixo, enquanto Bojack sobe. Falta equilíbrio até aí. Há algo mais contemporâneo do que isso.? (Pedro Antunes/Agência Estado).

Imagem de capa: Netflix/reprodução

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