Dirceu Magri Miscelânia

Opinião talhada na pedra

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri

Por Dirceu Magri

___ Acho qui num é bem assim. Eu já disse, o senhor divia pensá a respeito i quem sabe, mudá de opinião… Isso ia

facilitá por demais.

___ Num mudo não. Aqui, tenho minhas ‘opiniães’; sei que elas tão certa. Num mudo não!

O diálogo acima, ouvi-o na fila de um caixa eletrônico. Adiantei-me para próximo da máquina, efetuei alguns pagamentos e, quando voltei-me, as duas personagens já haviam desaparecido na multidão. Ficaram as duas falas a me incomodar e ressoar no espírito.

Há muito consideram louvável mudar de opinião; não a dos outros, por meio da astúcia, como dizia Maquiavel, mas a sua própria. Perdoe-me, leitor, enredar dois monstros da literatura em um só parágrafo pode parecer pedante, mas não posso deixar de pensar em Fernando Pessoa que disse um dia que “convicções profundas só as têm as criaturas superficiais”. Questão de sinapses…

Nada contra a coerência, em absoluto, mas sentar-se sobre uma opinião, buscando ser coerente consigo próprio, é demonstrar um atavismo despropositado, algo como se as opiniões, uma vez internalizadas, adquirissem características biológicas. Ora, até mesmo a ciência vive de um desdizer constante; à medida que novas experiências são postas à prova, conclusões anteriores ou são reelaboradas ou banidas de vez. Portanto, por que não mudar de opinião, olhar para outras paisagens, respirar outros ares, pintar-se de outras cores?

Mas não, alguns insistem em gravar suas opiniões na pedra como se fossem testemunhos dignos de serem preservados; quando não ressuscitam provérbios já há muito esquecidos, na tentativa de enobrecer textos e contextos por si só irrelevantes. As estripulias recentes da canalha política trouxeram à luz o célebre verba volant, scripta manent (as palavras voam, os escritos permanecem), que parece ter sido dito por Caio Tito, no senado Romano.

Hoje, em dias de intolerância e opiniões renhidas, talvez o maior estorvo para um bom diálogo seja o pensamento tribal. Tratando-se de questões religiosas, políticas ou raciais, partidários dos diferentes grupos rejeitam em definitivo pessoas que pertençam a uma outra comunidade que não partilha das mesmas ideias. Falar ou dirigir-se a essas pessoas constitui-se então uma tarefa desafiadora.

Os exemplos transbordam no senso comum: na matriz, há pouco mais de uma década, tivemos Uma verdade inconveniente, documentário de Al Gore, que tratava da crise global climática. A eloquência e a lógica irretocável de Al Gore não foram suficientes, embora tenham impactado muitos, a persuadir outros tantos. Explico-me: Al Gore era/ou é um político, ser que, por sua natureza, está fadado a/ou deve ser visto com reserva e muita desconfiança.

No mais, Al Gore gravitava em um país cindido por duas ideologias políticas. Nesses casos – aliás, vemos isso agora em nosso país -, a militância e os instintos partidários erguem barreiras intransponíveis contra as ideias e a propaganda do lado oposto. Ainda que a causa de Al Gore fosse legítima, ela foi relativizada por uma grande parcela da população americana. A prova de que, às vezes, as ideias são talhadas na pedra, é que a questão climática, ainda hoje, está na ordem do dia.

Aqui nos trópicos tivemos o caso Haddad, prefeito de São Paulo. Haddad colocou-se como objetivo implantar quilômetros de ciclovia na capital paulista. Mesmo que muitos desses quilômetros tenham sido desbravados em ruas sem qualquer condição de abrigar ciclovias ou estas, quando executadas, trouxessem de arrasto alguns bueiros em desnível, postes no meio do caminho e um ou outro buraco, muito foi feito e a ideia era – e é – ótima. A ideia de Haddad é uma mão na roda na qualidade de vida da poluída capital. No entanto, muita gente foi contra a ideia do prefeito em razão de ele pertence à parte contrária da canaille política (a partir de agora, leitor, toda vez que eu grafar canaille, trata-se de abjetos políticos).

Vê-se, com isso, o prejuízo causado pela impossibilidade – ou pela falta de vontade – de se colocar no lugar do outro, quiçá, mudar de opinião. Vivemos dias em que, apesar da disseminação do conhecimento, as pessoas mostram completo despreparo ou pura indisposição a ouvir. Resultado? A comunicação não acontece em razão de as opiniões terem sido talhadas na pedra, algo que nos rincões dizem de alguém “teimoso feito uma mula” ou ainda, um “cabeça dura”.

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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