Muito Doido

O ex-presidiário que virou ator premiado, foi preso antes de gravar novo filme e se viu na tela dentro de uma cela

Redação
Escrito por: Redação

Enquanto seus colegas de cela escutavam funk ou pagode no rádio, Juninho ouvia uma “rádio cultural, que tinha música mais lenta”, porque queria acompanhar as notícias. Ninguém acreditava, mas ele havia atuado em um filme que concorria a um prêmio na Mostra de Cinema de Tiradentes e tentava descobrir o resultado.

Comemorou sozinho ao ouvir que A Vizinhança do Tigre havia sido eleito o melhor filme da competição naquele ano de 2014. “Que ganhou o quê? Que ator o quê…”, caçoavam os outros presos.

No dia seguinte, um domingo de manhã, escovava os dentes quando gritaram: “Você tá na TV!”. Uma reportagem de um canal local mostrava imagens suas no filme de Affonso Uchôa.

“A galera toda veio me cumprimentar, virei celebridade na cadeia. Me falavam: ‘Desculpa por todas as vezes que duvidei de você! Você é ator, o que que tá fazendo aqui?'”, conta. “E eu: ‘Nada a ver, todo mundo é igual e todo mundo que tá na TV corre o risco de parar aqui também’.”

Cinco anos antes, Aristides de Sousa, o Juninho, fazia um bico rebocando paredes no bairro Nacional, periferia de Contagem (MG), quando se deparou com Uchôa e seu equipamento de filmagem. “É verdade que estão fazendo um filme no bairro? Como faz para entrar?”, perguntou.

O diretor, também morador do Nacional, estava esperando por um ator que não apareceu. Ele já conhecia Juninho de vista e sabia que era “divertido e extrovertido”. “Se quiser, pode entrar, mas tem que ser sério”, respondeu. “Já é”, disse Juninho.

A parceria entre ambos rendeu o primeiro filme e agora um segundo, Arábia, codirigido por João Dumans e vencedor do Festival de Brasília deste ano. O longa de baixo-orçamento (R$ 420 mil) será exibido a partir desta sexta (20) na Mostra Internacional de São Paulo. A estreia está prevista para março (clique aqui para assistir ao trailer, com legendas em inglês).

Juninho em
Image captionO mineiro em seu primeiro trabalho no cinema, em ‘A Vizinhança do Tigre’; ele soube de premiação do longa na cadeia | Foto: Reprodução

Escola do rap

Chamado de Juninho desde que nasceu, ele foi registrado apenas aos seis anos, contra sua vontade, como Aristides. Herdou não só o nome do pai, mas também sua polivalência nos bicos: só até os 23 anos foi perueiro, sorveteiro, vendedor de água mineral, cigarro e salgados no semáforo, entregador de cesta básica, ajudante de pedreiro, entre outras coisas.

Estudou até a 5ª série, mas, diz ele, ouviu “muito rap nacional”. Aos 11 anos, foi detido pela primeira das 18 vezes em que diz ter sido preso, por roubar uma máquina de caça-níqueis.

O mineiro não imaginava que aquele pedido despretensioso por uma ponta em um filme fosse se tornar seu ofício e que, aos 30 anos, em setembro deste ano, seria eleito o melhor ator no Festival de Brasília por Arábia. Ele, que queria que o nome nos créditos fosse “Juninho Vende-se”, recebeu o prêmio de chinelo, bermuda e boné, com um discurso de agradecimento aos colegas.

Juninho no Festival de Brasília
Image captionJuninho com seu troféu de melhor ator no Festival de Brasília, em setembro | Foto: Divulgação

“Fiquei um pouco feliz de ser reconhecido, mas pena que não tem mais prêmio em dinheiro”, diz ele à BBC Brasil, de óculos escuros e fumando, em uma entrevista via Skype na casa do diretor Dumans – Juninho não tem telefone.

Ele olha com desconfiança essas premiações. Quando “A Vizinhança…”, que retrata a vida de cinco jovens da periferia de Contagem, onde viviam, ganhou Tiradentes, ele diz ter pensado que era “uma falcatrua”. “Como é que esse povo dá prêmio para filme estranho? Achei que dessem prêmio para filmes de Hollywood, não para esses filmes culturais.”

Os que assistia eram do “cinemão”, com predileção pelas comédias estreladas por Jim Carrey, seu ator preferido, e Eddie Murphy. Com o tempo, diz, foi entendendo qual era a dos “filmes culturais”.

Arábia conta a história do solitário Cristiano, um trabalhador braçal nascido na periferia, que também tem passagem pela prisão e roda o interior de Minas Gerais, pingando de bico em bico e lutando para sobreviver de maneira honesta.

“O filme é baseado na certeza que essas histórias comuns, da periferia e dos pobres, são gigantescas”, diz Uchôa à BBC Brasil em Londres, onde foi apresentar “Arábia” no festival de cinema da cidade. “Esses caras não são coitados, não pedem comiseração.”

Embora o filme seja ficcional, a vida de Juninho inspirou os diretores. O ator vê a ligação entre sua vida e a do personagem como a do “cidadão explorado da sociedade, que só trabalha e trabalha e a vida passa e nem viu o que fez”.

Tornozeleira no cachorro

Aristides de Sousa escrevendo memórias
Image captionO ator em seu exercício de roteiro do longa ‘Arábia’, escrevendo suas memórias e outras observações | Foto: Wederson Neguinho

Em 2014, quando Uchôa e Dumans decidiram que o protagonista de Arábia seria Juninho, o ator estava na prisão por um assalto – havia furtado uma bolsa. Conversavam por meio de cartas. Assim que foi solto, eles lhe encarregaram de escrever um caderno com memórias de sua vida -atividade que foi remunerada como forma de lhe dar alguma ocupação antes de começarem as gravações.

“Mais do que os fatos e acontecimentos específicos, essas memórias deram o tom para o personagem principal”, diz Dumans. No caderno, Juninho passou páginas descrevendo sua fascinação com um produto de limpeza. Também chamou a atenção dos diretores a recorrência da palavra “finado” – uma forma de registrar lembranças de pessoas que perdeu.

Enquanto escrevia o caderno, o primeiro filme em que havia atuado, A Vizinhança do Tigre, seria exibido em um festival no Rio de Janeiro. Juninho estava em regime semiaberto, usando uma tornozeleira eletrônica, mas não pensou duas vezes entre burlar a lei e se ver pela primeira vez em uma tela grande.

Tirou a tornozeleira e a colocou no pescoço de seu cachorro e foi direto para a praia no Rio. Depois seguiu para a projeção.

“Pensei: a minha vida é só cadeia, só cadeia… Tá na hora de curtir minha vida antes que me matem lá”, afirma. “Acho que vão sempre prender a gente, fazendo alguma coisa ou não. A oportunidade que eu tive para fugir, eu fugi. Fui para o Rio.”

Quando a bateria da tornozeleira acabou, foi considerado fugitivo. “A violação da tornozeleira é comum. A gente sabia que isso era um negócio ruim. Conversávamos com ele no sentido de afastá-lo de situações potencialmente perigosas”, afirma Uchôa.

De volta à prisão

Às vésperas do início das filmagens de Arábia, em março de 2015, Juninho foi preso novamente acusado de furto simples. Uchôa e Dumans se desesperaram com a perda do protagonista. A contragosto, chegaram a fazer testes com outros atores. “Íamos filmar tristes porque todo o personagem era escrito pra ele”, diz. “Tudo era para ele.”

O personagem Cristiano, de Arábia
Image captionCristiano, vivido por Juninho, em cena em fábrica de Ouro Preto; o ator vê semelhanças com o personagem na questão da exploração do cidadão | Foto: Divulgação

Os diretores procuraram a Defensoria Pública de Minas Gerais para ajudar Juninho. Fizeram um dossiê com todo o trabalho realizado por ele e os prêmios obtidos com seu primeiro filme e, com o argumento de que seu trabalho como ator era uma maneira mais eficaz de reinseri-lo na sociedade do que a prisão, protocolaram na Justiça um pedido para soltá-lo.

Três meses depois, na semana em que começariam as filmagens com outro ator, Juninho conseguiu sair da cadeia provisoriamente. A produção precisou especificar à Justiça os dias de gravações em que Juninho estaria viajando por conta do filme.

Durante os dois meses de filmagem, o ator “não quis pagar de marajá” por ser protagonista. Ajudou a produção em tudo: ia comprar comida no supermercado para a equipe e escolhia produtos mais baratos para cortar os gastos, segurou microfones, carregou objetos no set de filmagem, parou o trânsito para as gravações, ficou amigo de todos os motoristas. Quando atuava, não tinha problemas para memorizar falas, segundo os diretores.

“Não tínhamos dimensão de quanto o Juninho era bom ator. Só fui entender depois. Ele não precisava de orientação. Nem entregávamos o texto para ele um dia antes. Dávamos o texto na hora, ele ia e fazia”, diz Dumans.

De volta à sociedade

Juninho começou a usar drogas aos 13 anos. “Já fui muito usuário, já vendi muita droga, já desgracei minha vida toda. Usei de tudo um pouco: crack, pó, loló, benzina, lança-perfume, até verniz e acetona”, afirma. E hoje? “Hoje em dia a gente não pode falar dessas coisas que pega mal pra caramba.”

Sua carreira como ator, conta, mudou sua mente. Diz achar “bem possível” voltar para a prisão. “Todo mundo que já passou lá dentro tem chance de voltar.” Ele afirma não saber qual é a sua situação penal atualmente. “Na verdade eu nunca tive pena nenhuma. Foi imposto que eu tinha que pagar cadeia, mas não me ligo nessas paradas, não. Se quiser me prender de novo, pode me prender. Não assino papel, não vou no juiz.”

Segundo o defensor público Paulo Ventura, da Defensoria de Minas Gerais, Juninho foi condenado em primeira instância pelo crime de furto simples, sem ameaça ou violência, e está recorrendo em liberdade.

Mas Juninho afirma que, depois de “Arábia”, tem se mantido longe da criminalidade. “Tento me afastar dessas coisas. Estou cheio de conta de luz para pagar, mas vou fazer o quê? Não quero ficar preso, então tenho que procurar uma maneira de sobreviver.”

A que ele encontrou é dentro do próprio cinema: tem trabalhado como ator, na produção de filmes, na assistência de som e até escrevendo roteiros. Também está estudando teatro – ganhou uma bolsa em um dos principais grupos do país, o Galpão, em Belo Horizonte.

Uchôa diz acreditar que o trabalho no cinema seria “uma recuperação melhor para ele do que a punição da lei”. Para o diretor, muito de sua percepção de “Arábia” está relacionada com a figura de Juninho, “um sujeito que tem coragem e força para se jogar em situações de desconforto, sempre se arriscando”.

“A gente veio do mesmo lugar, mas eu fui à universidade e ele não. Toda periferia está subjugada, mas ainda assim existe a possibilidade de guiar a própria vida também. Depende da coragem. A prudência nasce da propriedade, de ter algo a perder. Os pobres estão do lado da coragem.” Com informações da BBC

Imagem de capa:Divulgação

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