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Fotógrafa Nan Goldin critica invasão do politicamente correto

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Escrito por: Redação

Da janela de seu ateliê numa ponta do Brooklyn, Nan Goldin vê as torres de Manhattan no horizonte, o prédio metálico da Chrysler brilhando feito uma agulha afiada entre as nuvens escuras.

“Nova York era feita de gente que queria fugir da América suburbana”, dizia a artista, com o quarto cigarro da tarde entre os dedos. “E agora ela virou mais uma parte daquela mesma América.”

Os inferninhos fervilhantes e as noites de sexo e drogas que ela fotografou ao longo de décadas como testemunho do hedonismo e da violência na maior metrópole americana se perderam para sempre à sombra dos arranha-céus de Donald Trump.

“Tudo parece limpo demais, controlado demais”, diz a artista, uma das maiores fotógrafas do século passado. “Foi trágica a noite em que Trump foi eleito. Viver aqui se transformou numa coisa cruel. Ele ainda vai nos levar a uma guerra nuclear.”

Esse seu pavor não parece exagerado. É real e casa com a narrativa de declínio pegajoso em toda sua obra plástica. Goldin construiu em imagens a crônica definitiva dos estragos da epidemia da Aids sobre uma geração, um lamento trágico pelo fim de uma era de liberdade desenfreada que deu lugar à atual era de controle e vigilância.

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E também censura. Há seis anos, no que parece um estranho prelúdio do atual clima de guerra cultural, uma mostra da artista foi cancelada pelo Oi Futuro, no Rio, depois de o centro cultural sofrer críticas de detratores que viram pedofilia nas obras – crianças nuas aparecem em algumas de suas fotografias.

Ela então desmarcou sua passagem pelo Brasil e conta que se esforçou para esquecer o assunto, resumindo suas memórias brasileiras às boates paulistanas -todas extintas- que conheceu em outra viagem nos anos 1990 e ao dia em que posou nua para Tunga, artista morto no ano passado, que visitou a sua suíte no Copacabana Palace.

Mas as lembranças da censura que sofreu devem voltar à tona na próxima terça, quando Goldin estiver em São Paulo para realizar uma fala no Instituto Tomie Ohtake.

“É insano ver pedofilia no meu trabalho. Isso me dá nojo”, diz Goldin. “Os grupos que atacam exposições de arte agora devem estar cheios de pedófilos. Eles só querem cultivar o medo. Quanto mais tratarem o sexo como algo secreto, mais assustadoras as coisas se tornarão. Não entendo por que toda a sexualidade humana deve ser mantida fora do alcance das crianças.”

Ela fala tanto dos que pressionaram para censurar sua exposição, que acabou deslocada para o Museu de Arte Moderna do Rio, quanto dos protestos recentes no Brasil, que levaram à interdição da mostra “Queermuseu”, no Santander Cultural, em Porto Alegre, e à proibição da entrada de menores de idade na mostra “Histórias da Sexualidade”, em cartaz no Masp.”Que ótimo legado eu deixei para o Brasil”, ironiza a artista. “Museus estão se curvando para acomodar a vontade dessas pessoas? Eles não reagem? Não querem lutar?”

Suas perguntas, no caso, são retóricas. Goldin entende que o mundo da arte opera seguindo fluxos financeiros distantes de vontades estéticas ou criativas e denuncia um quadro de paralisia em museus e galerias de todo o planeta. Mas as pressões, ao contrário do que ocorre em ditaduras ou regimes totalitários, agora vêm de dentro.

“Não sei se existe ainda censura à arte. O mercado exerce um controle tão enorme sobre tudo, que a censura surge em vários níveis”, diz a artista. “As obras nem chegam a ser mostradas para que possa haver censura. Ou são mostradas num contexto diluído. Há exposições sobre sexualidade e gênero, mas elas não vão muito longe.”

Ou se perdem em conceitos. Goldin não parece ter muita paciência para o que entende como uma invasão do politicamente correto na esfera da arte, atacando o que classifica como “obras teóricas, que não vêm de dentro”.

“Sempre foi uma meta do meu trabalho dar às pessoas um reflexo do que são”, diz a artista. “Fotografava pessoas transando quando eu estava transando. Fotografava pessoas injetando heroína quando eu estava injetando. Eu participava de tudo porque as imagens eram sobre mim e as pessoas ao meu redor.”

Essas pessoas ao redor, no caso, eram drag queens, gays, artistas e toda classe de drogados que viviam de bar em bar na Bowery, a avenida que corta o Lower East Side, bairro de Manhattan que deixou de ser meca da contracultura para virar território de butiques e galerias de arte – o mítico CBGB, onde tocavam os Ramones e os Misfits, virou uma loja de sapatos de grife.

“Morro de saudades daqueles dias”, diz Goldin. “A cidade já era. Outro dia, uma mulher na Bowery veio me perguntar onde é que ficava Manhattan. Isso, para mim, resume toda essa situação.”

Enquanto lamenta a passagem do tempo, Goldin também se esforça para que certas coisas fiquem no passado. Desde que perdeu seus amigos para overdoses ou a Aids, ela largou as drogas e também deixou de fotografar a noite, o sexo e a cidade.

“Não quero retratar a cena dos outros, nada que não seja meu”, diz Goldin, que passou os últimos meses internada numa clínica de reabilitação para se tratar do vício em opiáceos, epidemia que consome os Estados Unidos.

“Esses tempos foram muito difíceis para mim. Eu apagava de um segundo para o outro”, lembra. “Estou sóbria há uns meses, mas por isso estou só pintando e desenhando. Minhas fotografias agora são só de paisagens.” Com informações da Folhapress.

PALESTRA NAN GOLDIN

QUANDO terça (31), às 19h30

ONDE Instituto Tomie Ohtake – av. Faria Lima, 201, Pinheiros, tel. (11) 2245-1900

QUANTO grátis, retirada de senha duas horas antes na portaria

Com informações do Notícias Ao Minuto.

Imagem de capa:Getty Images

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