Dirceu Magri Miscelânia

Fatos, opiniões e pós-verdade

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri

Por Dirceu Magri – À época das ideias positivistas, teorias e argumentos, uma vez submetidos a métodos científicos válidos, tornavam-se irrefutáveis. Até mesmo a cultura surgia impositiva, considerando-se que havia freios à arbitrariedade de ações e crenças. Tudo isso perdeu-se na poeira dos tempos.

Vivemos tempos de extremado relativismo, tudo pode e não pode ser, enfim, a marca de nossa existência holográfica. O que você vê não é real. O que você lê não tem lastro. Fatos não existem mais, foram extintos pelo poder da opinião. São Tomé, insurreto em sua fé, jamais tocaria as chagas do Mestre; quando muito, viveria da exponencial dúvida que é a existência, obrigando-se a beliscar a própria carne para provar da sua materialidade.

Antes, a virtù visiva dava alguma garantia do real, ou da representação dele, seja lá o que isso for; hoje, vemos o que inexiste e, se existe, quando pode ser tocado – ou lido -, foi criado com o simples propósito da trapaça, do engano, para nos desviar daquilo que intencionalmente não querem – ou querem – que vejamos.
Vou a Pasárgada com a alma leve, mas não vou a Brasília, recuso-me. Caso me atrevesse comentar a estripulias das canalhas legitimadas que lá habitam, me embrenharia por um pessimismo que sequer o filósofo de Dantzig suportaria. Mas esqueça o preâmbulo, caro leitor, e vamos ao título.

Não sou expert em jornalismo, como também duvido que o seja a maioria que opina nos periódicos atuais. Tento ler a obra antes da crítica, e vá lá, às vezes sinto-me credenciado a dar meus pitacos.

Vamos aos fatos e opiniões: um fato é algo que aconteceu na realidade, e opinião, o que se pensa a respeito, uma interpretação. Eis a liçãozinha básica. Ocorre que nem todos recontam o fato do mesmo modo e é aí que, de modo sorrateiro, a opinião mete o bedelho; seja pela organização das ideias, seja pelo modo seletivo com que a informação vem à luz, priorizando a opinião do autor.

Fato e opinião se embrenham de tal modo que, relativizados, entram em conflito. Hoje, é comum ver a opinião galgar degraus, pisotear os fatos. Não que se deva priorizar um em detrimento do outro, mas é fato que não se condena um assassino, por exemplo, pela antipatia que o dispunha contra a sua vítima, mas pelo fato de tê-la mandado sem um reles óbolo, visitar Caronte.

E não é que a memória me traz de arrasto aquela senhora acriana, cujo marido fez fortuna à custa de umas poucas toras de mogno (mais um caso, dizem, em que confundiram fato e opinião)? Lá pelas tantas, antes da tragédia de Mariana, gozando da alcunha de ambientalista, bradou contra a arrogância e a esperteza dos fatos objetivos, derivados de um positivismo rudimentar, afirmou ela, que se julgam superiores à opinião, esta, vista como mera suposição subjetiva. Diz ela que os fatos, seletivos, surgem para sustentar opiniões baseadas em interesses próprios e objetivos.

Nessa toada, o que se vê é a opinião maculada pelo objetivismo dos interesses, e o fato, outrora objetivo, ganhar subjetividade em consonância com o discurso e os interesses nele impressos. Alienados, os fatos tornaram-se massa de manobra, tanto é que hoje podem ser mesmo alternativos, virtuais; já a opinião vestiu-se de certa nobreza, em conformidade à relevância da posição de seu enunciador (na política, quase sempre pautada pela mediocridade, inexplicavelmente move multidões).

Parece-me que nós, o populacho, hora ou outra dependemos desse maná para sobrevivermos no deserto. Ao longo da travessia, olhos e mentes turvados pela areia, guiamo-nos pelo vulto da opinião, na qual acreditamos piamente, investindo-a de verdade. Isto posto, agimos como aquela personagem de Ponson du Terrail, o sr. Williams, para quem os homens deixam de acreditar nas verdades que afirmam em demasia.

Assim, chegamos à pós-verdade, comportamento que faz com que o homem se recuse a acreditar naquilo que está diante dos seus olhos, no que já foi provado por A mais B. Na era da pós-verdade, acredita-se naquilo em que se quer acreditar.

O resultado, creio, é nefasto: políticos já não são mais políticos, mas gestores; quando investigados pelo desvio de milhões, se dizem inocentes; condenados pelos mesmos crimes, se dizem injustiçados, perseguidos; tratando-se da ineficiente máquina pública, os responsáveis, quando entrevistados, garantem sua excelência e plena funcionabilidade; a população, de um lado, morrendo à mingua, reclama da ausência da polícia, do outro, a polícia afirma sua onipresença e eficiência; ministros cujas obras são referências, são pegos por plágios, mas continuam referências; doutores se dizem doutores, mas desconhecem o conteúdo de suas teses, pois jamais as escreveram; candidatos comemoram vitórias em concursos públicos, mas seus nomes já haviam sido escolhidos à socapa antes mesmo da realização das provas e così via. E acreditamos!

Hoje, desconfiei dos céus: as nuvens espessas prometiam chuva, porém, o sol rompeu-se abruptamente, rasgou o enorme aglomerado de gotas em suspensão, mostrou-se atrevido; ainda assim, acreditei que chovia, senti as gotas d’água que escorriam pelo meu rosto, gotejavam dos lábios e deslizavam até meu peito gotículas de pós-verdade.

Imagem: Reprodução/Internet

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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