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Dor abdominal em crianças e adolescentes

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Escrito por: Jane Rezende

Por Jane Rezende – Do nascimento até a adolescência ocorrem episódios de dores nas crianças. Essas queixas causam sofrimento dessas crianças e preocupam familiares. No primeiro ano de vida as cólicas são mais comuns, nos pré-escolares as  principais dores são em membros inferiores, entre os 4 e 12 anos as dores abdominais, e nos adolescentes as dores de cabeça. Está estabelecido que a dor tem um componente físico neurológico e um componente emocional, ambos influenciados pela genética, experiências individuais e ambiente cultural. A influência biopsicossocial entre criança e dor recorrente tem aumentado. Essas descobertas permitem novas abordagens diagnósticas e terapêuticos para a DAR na infância.

A dor abdominal, em crianças, é definida quando da ocorrência de três ou mais episódios de dor no abdome no período não inferior a três meses. O paciente mantém-se sem sintomas entre as crises dolorosas. A DAR é a causa mais comum de dor recorrente em escolares. Pode ser de origem orgânica ou funcional sendo esta última definida quando não se encontra uma causa anatômica, infecciosa, inflamatória não infecciosa. A DAR pode manifestar-se como dor periumbilical, dor e dor abdominal com disfunção do tubo digestivo. Sinais e sintomas de dispepsia incluem náusea, vômito, regurgitação, pirose, saciedade precoce, soluços e desconforto abdominal, diarreia, constipação e sensação de evacuação incompleta. Apenas cerca de 5% a 10% das crianças que manifestam DAR apresentam uma causa orgânica. As meninas são mais acometidas em relação aos meninos. Inicia-se, habitualmente, a partir dos 4 anos de idade, e há um aumento constante do número de casos entre 4 e 5 anos, com declínio após essa idade nos meninos e aumento marcante de novos casos em meninas até os 10 anos.  Nos casos de dor abdominal funcional considerar a predisposição genética, o sistema nervoso autônomo, o estresse e o processo inflamatório do tubo digestivo. Estudos não mostram relação entre alterações emocionais e a dor recorrente. As alterações psíquicas não são causas primárias da dor abdominal funcional, mas processos emocionais funcionam como gatilhos da dor. A melhora da dor recorrente com a alteração da dieta pela retirada de substâncias produtoras de gases (lactose, frutose, sorbitol), provocadoras de distensão do tubo digestivo, ou de ácidos graxos, que modificam a motilidade ou alimentos com corantes e conservantes ou excesso de leite mostram a importância de uma alimentação equilibrada. A ansiedade da criança desencadeia ou intensifica a dor. Geralmente os pais não sabem como lidar com a dor. Eles respondem de maneira ambígua à crise dolorosa. Algumas vezes dispensam grandes cuidados físicos e emocionais. Em outros episódios sugerem que o paciente seja o único responsável no manejo da dor. A criança entende que as manifestações dolorosas devem ser comunicadas com atitudes exageradas para receber um melhor suporte parental. Este comportamento mantém a dor. Os pais também encorajam o filho, após as crises, a não ir à escola, repousar, evitar atividades físicas estressantes, não cumprir compromissos sociais e não fazer atividades desagradáveis. Dispensam-no das responsabilidades familiares. Ocorrem, portanto, ganhos secundários que iniciam ou prolongam o processo doloroso. A criança torna-se frustrada, isolada e ansiosa. Adquire atitudes passivas frente à dor. A passividade intensifica a percepção dolorosa. Todos esses aprendizados irão manter e intensificar a dor abdominal.  A dor de repetição é de natureza aversiva, causando estresse prolongado na família e no paciente. A criança torna-se ansiosa, medrosa, frustrada, irada, triste e deprimida

. As dores variam de gravidade e freqüência no mesmo paciente. A criança aponta com a mão para a região do umbigo como o local onde a dor é mais intensa. Durante as crises mais intensas podem ocorrer sinais e sintomas associados: cefaleia, palidez, náusea, vertigem, prostração. Entre as crises, a criança apresenta-se sem queixas e sem alterações ao exame físico.

Problemas  maritais, desavenças entre irmãos, doenças recentes de parentes ou outros conflitos podem desencadear as dores abdominais, como conflitos na escola, autoestima baixa, encontramos pacientes hiperativos, superexigentes e com intolerância à frustração. São “boas crianças” em termos de atitudes, comportamento e maturidade. Assumem mais responsabilidade em relação à faixa etária. São agressivos com a falta de sensibilidade dos adultos para com a sua doença, toleram pouco a crítica. É importante a obtenção de uma história detalhada, é necessário deixar a família e a criança falarem; seu corpo, seus gestos, sua voz têm que ser ouvidos.

Deve ser valorizado cada episódio de dor como sendo dor aguda, já que uma criança com dor não está isenta de desenvolver uma doença aguda, como  apendicite.

O tratamento da Dor, que começa na primeira consulta, visa

  1. Esclarecer os pais quanto à autenticidade da dor; não se trata de simulação ou imaginação, e sim de dor real;
  2. Introduzir o conceito de doença funcional;
  3. Explicar o possível papel da alteração de motilidade do tubo digestivo.
  4.  Mostrar a benignidade da dor abdominal recorrente
  5. Tranqüilizar familiares e a criança quanto à possibilidade de doenças orgânicas graves;
  6. Diagnosticar possíveis fatores do comportamento da criança que desencadeiam ou pioram o quadro doloroso;
  7. Abolir os ganhos secundários da dor recorrente como mimos, privilégios e maior atenção familiar;
  8. Garantir que a vida do paciente seja normal. As atividades só serão interrompidas no momento da dor.

Portanto em casos de dor abdominal recorrente procurar pediatra para diagnóstico preciso e descartar provável doença física ou comportamentos emocionais associados.

Sobre o autor

Jane Rezende

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Jane Rezende é médica pediatra.

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