Dirceu Magri Miscelânia

Deus, essa personagem literária

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri

Por Dirceu Magri – Confesso que hoje não pretendia sequer resvalar na canaille. Mas não é que certa senadora, acima de qualquer suspeita, veio a público afirmar peremptoriamente que em seu partido não há bandidos? Li o que li em tom de ironia, afinal, só essa figura de retórica tem o poder de negar afirmando, como parece ser o caso. É tudo tão óbvio que nem mesmo a ironia de situação, acho, dá conta do desejado.

Mas voltemo-nos ao Altíssimo. Em minhas aulas de literatura tratava do estético, essa preocupação mais de cunho individual que de sociedade. Conversa vai, conversa vem, comentávamos alguns aspectos da originalidade, quando lembrei-me daquela estranheza que jamais assimilamos, teorizada por Bloom. O assunto pulou para a genealogia das obras e de arrasto veio o Gênesis. Curso de Letras, discussão sobre livros, literatura e discursos, e a tradição religiosa se impõe como provocação ante a compreensão da ficção.

Melhor fora não imaginar o mundo sem Deus e dar asas ao existencialismo sartriano, porque aí as suscetibilidades e a fé destruiriam qualquer raciocínio. Diante disso, trouxe Voltaire com sua célebre expressão Si Dieu n’existait pas, il faudrait l’inventer (Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo.) e tudo continuou como se esperava.

Mas o fato é que a ambivalência entre o humano e o divino marcam os textos bíblicos desde a origem, sendo esta uma das características de sua originalidade. O susto vem da compreensão de que a adoração de Deus por judeus, cristãos e muçulmanos é a adoração de uma personagem literária. E não me acusem de blasfêmia, pois só estou a papaguear Bloom.

Acredita-se que a autora original dos livros de Gênesis, Êxodo e Números tenha sido J ou Bathseba, a rainha mãe de Salomão, uma hitita tomada pelo rei Davi, que, depois de cobiçá-la, deu um jeito de “apagar” do mapa seu marido Urias, enviando-o para um combate mais que conveniente.

É claro que a ironia de uma hitita escrever os livros basilares da Torá, e não um israelita, deveria ser corrigida, afinal, o Javé de Bathseba, também conhecida por J, é humano demais: é vingativo, come e bebe, delicia-se com suas estripulias, é ciumento, proclama sua imparcialidade ao mesmo tempo em que se coloca ao lado de seus protegidos e così via, de modo que Deus, Zeus e todo o pessoal do Olimpo irmanam-se em ações e humores, relativizando o divino e o pagão. E aqui trago um trecho sublime de Bloom: “Quando [Deus] conduz essa malta [os israelitas escravizados no Egito] enlouquecida e sofredora pelo deserto do Sinai, já se tornou tão insano e perigoso, para si mesmo e para os outros, que a escritora J merece ser chamada de a mais blasfema de todos os autores que já existiram.”

Não à toa, o que Bathseba escreveu foi censurado, apagado, distorcido e revisado inúmeras vezes ao longo dos séculos até que tivéssemos os livros tais como os lemos hoje, sendo Ezra o último desses redatores, logo após ter retornado de seu exílio na Babilônia.

Bathseba dá azo a uma liberdade irônica ao retratar Javé (Deus) que, é certo, escandalizou sacerdotes e escribas, portanto, o melhor a fazer era reescrever tudo ou a maior parte.

A narrativa de J, até onde se sabe, termina quando Javé enterra Moisés, com suas próprias mãos, numa cova anônima, sem sequer tê-lo deixado botar os pés na Terra Prometida. O relato de J, que transcende a ironia e a tragédia, traz Javé como uma personagem que se aflige por ter escolhido um profeta obstinado, obrigando-o mesmo a tentar assiná-lo gratuitamente enquanto a malta vagava pelo deserto.

Mas evitemos outros sustos: não falemos da personagem criada pelo evangelista Marcos, ou da audácia de Maomé ao registrar a voz de Alá em detalhes e extensamente no Corão. Relativizemos. Atenhamo-nos ao tamanho da nossa sociedade fluminense (como diria Alencar) e, ainda assim, não falemos da imagem encontrada nas águas no Rio Paraíba do Sul. Não olhemos para Padim Ciço, conselheiro de Lampião!

Quanta pretensão divina em reles humanos!

Mas vá lá! Por mais que o caldo entorne, ainda temos de um lado Voltaire a dizer que há uma fé para as coisas espantosas e outra fé para as coisas contraditórias e impossíveis; e do outro lado a canção, que teima em nos alentar garantindo que “a fé não costuma faiá”.

Imagem de capa: Reprodução

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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