Cultura Nelson Polinário

Demônios interiores

Nelson Polinário
Escrito por: Nelson Polinário
“Domine seus demônios para que eles não dominem você.”

Por Nelson Polinário – Selma era calma. Por que Selma gritava tanto quando se descontrolava? Naquele dia ela estava serena e nada parecia que poderia tirar ela de seu eixo. Mas ele conseguiu. Roberto. Sim, ele era o veneno de Selma. Ele conseguia desestabilizá-la. E mesmo no mais calmo dos dias foi isso que aconteceu. Selma estava sentada na varanda da sua casa brincando com suas bonecas, sua mãe arrumava os petiscos na cozinha e seu pai limpava a grelha, facas e tudo mais que eles usariam no churrasco de logo mais. 11 horas da manhã. O sol começava a ficar quente. Selma brincava enquanto o barulho do esguicho nos objetos de metal servia de som para a cachoeira imaginária onde suas bonecas nadavam.

Roberto apareceu por entre as cercas da casa de Selma com seu cachorro. Seus corações dispararam: o de Selma por ver Roberto e o do cachorro por ver Selma. Os latidos do “cãozinho” que poderia matar Selma já começavam a irritá-la. Seu pai foi até Roberto, o cumprimentou, acalmou o “cãozinho” e só deixou de papo furado com o gentil menino quando o telefone da casa tocou e sua esposa gritou lá de dentro para que ele atendesse. Sem desligar a torneira, pediu licença, deixou a cerca aberta e entrou na casa. Roberto olhava para Selma fixamente enquanto ela mergulhava os olhos em suas bonecas tentando fingir que não o via.

Puxando o seu cachorro, ao ver o portão aberto, ele sentiu-se convidado para entrar e antes que Selma pudesse se refugiar dentro de casa ele já estava ao seu lado. O “cãozinho” não latia quando estava perto de Selma devido aos insistentes carinhos do menino Roberto e os petiscos que ele lhe dava de tempos em tempos dizendo: “Calma garoto, Calma. Eu também sei  que ela é uma menina má. Eu sei. Mas a gente tem que ser gentil com ela. Calma.” Quando Selma se deu conta do que Roberto falava sentiu sua pele arder, suas bochechas passaram de um rosa bebê para um vermelho fogo ardente. Um prato cheio para que o doce vizinho dissesse: “Olha só, ela está ficando má. Daqui a pouco ela vai gritar. Vai sim. Você vai ver.” Metralhando Roberto com um olhar, Selma virou as costas para Roberto. Ele, por sua vez, sem pressa, amarrou seu cachorro num cano que saia da terra, o mesmo cano em que a mangueira usada pelo pai estava ligada. Selma ouviu e sentiu os passos de Roberto subindo a escadinha da varanda e chegando perto dela. “Por que você está nervosinha? Não consegue ser boazinha quando me vê né?”… Nada. Selma não disse nada. Seus olhos encheram-se de ódio e Roberto continuou depois de não ouvir uma resposta: “Você é uma falsa. Até aquelas meninas que mataram seu gato são melhores que você.” Selma virou-se olhando para ele furiosamente e com um certo espanto. Suas mãos tremiam e sua respiração começava a ficar ofegante. “Ficou bravinha agora? Olha aí a Selma de verdade. O que você vai fazer? Já sei. Nada!. Na-da.” Ela voltou a virar-se de costas para seu vizinho “querido” e começou a apertar a boneca que tinha em suas mãos. Roberto sentiu que tinha conseguido tirar Selma ainda mais do sério e continuou irônico: “Nossa… Essa parte sua eu nunca tinha visto Selminha. Você realmente deve ser uma menina horrível.” Selma começava a acalmar sua respiração e suas mãos deixavam de estrangular a boneca que tentava reviver em suas mãos quando ouviu Roberto continuar sua onde de provocação: “Vou embora que eu tenho muita coisa para fazer. Coisa de gente que é uma boa pessoa. Você não iria entender.”

Com um sorriso sarcástico, Roberto encaminhou-se para descer a escada da varanda e antes de pisar no primeiro degrau sentiu uma energia vindo de Selma. Quando ele virou-se, a viu olhando para ele com um olhar meigo e suave. Roberto lançou um “beijinho” para Selma, desceu a escada, soltou seu cachorro e ao falar “Vamos comer!?” Seu cachorro saiu correndo pelo portão da cerca em direção à casa ao lado. Selma continuou a olhar Roberto, o qual logo após dar seu primeiro passo para ir embora pisou num monte de gordura da grelha que repousava ao lado da torneira. “Que nojo!” Disse Roberto tentando sem sucesso limpar a gordura de seu tênis na grama do quintal. Selma continuava a encará-lo. Calmamente ela levantou-se e foi até a torneira onde a água vertia sob aos apetrechos de seu pai. Roberto viu que ela abaixou-se e aproximou-se dele com a mangueira em uma das mãos. Ele levantou o pé para Selma limpá-lo: “Vai lá santinha.” O erro de Roberto não foi de falar essas últimas palavras, nem do que falara a instantes atrás, nem de tudo mais que fizera para Selma e muito menos de não ter olhado a faca que Selma trazia em sua outra mão; Seu erro maior foi o de ter a capacidade de conhecer verdadeiramente o íntimo das pessoas.“Domine seus demônios para que eles não dominem você.”

Sobre o autor

Nelson Polinário

Nelson Polinário

Nelson Polinário é ator, diretor teatral e professor, Presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Indaiatuba, Consultor em Mercado Artístico-Cultural e fundador do Espaço Teatral e Cia “Nelson Polinário”. Soma em sua carreira participações em espetáculos vencedores dos maiores prêmios brasileiros e experiências com conceituados artistas e cias da Itália, Israel, Canadá, Espanha, Holanda e França.

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