Dirceu Magri Miscelânia

2017: um tempo de mim

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri

Por Dirceu Magri – Não sou muito de pensar a meu próprio respeito, mas, ainda assim, pretendo falar de mim. Em vossos dias, tal confissão soa algo meio egoísta. Ocorre-me, neste instante, jamais ter sido preciso que eu provasse isso ou aquilo. Nunca vivi crises existenciais; sequer experimentei a sensação de perda ou lamentei fracassos. Também não me lembro de ter corrido desenfreadamente em busca do sucesso e da fortuna. Não me deixo levar por misérias reconhecidamente humanas.

O que trago em mim de mais humano é o fato de que rio desbragadamente – dos outros -, embora me imputeis certa sisudez e mau humor. Sim, rio do outros sempre. Trago nos lábios aquele movimento no canto da boca que marcou a vida de alguns ilustres dentre vós; tenho em mim um azo para o sarcástico, tal aquele senhor cujo menu de crianças de carne tenra e assadas em forno brando afrontou a vossa hipocrisia.

Nunca vos tratei como estúpidos, sempre vos respeitei, ainda que a grande maioria dentre vós o seja. Alguns poucos merecem meu respeito e admiração, considero-os sábios. Afinal, buscaram na fraqueza de vosso caráter a explicação de vossa existência. Gulosos, avarentos, luxuriosos, invejosos, preguiçosos, orgulhosos… Trazeis na alma esses matizes constitutivos da vida miserável que levais; contudo, considerai-vos perfeitos.

Admiro os poucos dentre vós que julgo sábios. Por eles tenho sincera reverência. Esclareço que meu conceito de sapiência atém-se mais à reflexão que à criação. Nisso somos diferentes: enquanto prezo os pensadores, pensais nos criadores de inovações que vos facilitais a vida, mas vos rouba a liberdade em proveito do progresso. Tornai-vos escravos de máquinas, entregais a elas a faculdade de pensar e acreditais que assim desenvolveis ideias.

Chamo de sapiência e progresso o pensar. Por isso, louvo aquele que um dia referiu-se a mim sem definições. Procurai em vossas maquinetas e ali encontrareis Santo Agostinho. Em suas Confissões, no Livro XI, aventura-se a tratar de mim. Dedica-me todo o capítulo; é claro que vós vos entremeteis na reflexão, mas isso é tudo para mostrar que sobre mim não tendes qualquer domínio; sequer definir-me sabeis muito bem.

Não por outra razão, Agostinho, ao tratar da vossa ignorância, afirma que andais “ao redor das ideias da sucessão dos tempos passados e futuros, e, por isso, tudo o que excogita é vão”. Há menos de uma semana, haveis movimentado todo o vosso espírito em razão de uma data que criastes na tentativa de me aprisionar – e que agora chamais de Réveillon; isso porque acreditais que de tempos em tempos eu me desperto. Ora, a essa hora creio que sabeis que eu, o tempo, não adormeço, não me desperto, sou eterno e impassível!

Prova de minha imutabilidade e de vossa ignorância é que, mesmo assim, não sabeis mesmo quem sou. Não à toa, o Santo Sábio pergunta: “Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei. Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de contestação, que, se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existiria o tempo presente.”

Vistes que Agostinho prova o eu que disse acima: alguns dentre vós sois sábios; contudo, a maioria padece de inelutável ignorância, tanto é que nem sequer sabe definir-me, e, por não sabê-lo, sofre. Ainda que para muitos dentre vós seja claro que passado e futuro não existem, mesmo assim, não desfrutais do presente – a única parte de mim em que vos concedo relativa autonomia.

A alma humana padece desses entreveros de espírito: ora queixa-se do passado, atribuindo-lhe a razão de seus dissabores, ora louva-o com entusiasmo e saudosismo, dizendo ser ele o responsável pela melhor parte de sua vida. Há ainda almas que depositam suas esperanças no futuro e fazem do amanhã o arrazoado que justifica toda uma existência. Ambas, a que vive no passado, ou a que vive no futuro, esquecem-se do eterno “hoje”, tão efêmero quanto um dia. Mas nem isso se pode dizer verdadeiro, porque esse tempo já não existe! O instante em que começastes a ler este parágrafo já é passado. Quando me deixo escorrer por entre vossos dedos julgais que a mim podeis medir e perceber. Mas como podeis medir o que não existe?

Penso na imbecilidade de vossa existência a vaguear entre o passado e o futuro. Esquecei-vos completamente do presente fugaz. Passais toda a vossa existência à procura do frívolo sem lembrar-vos de viver a vida. Não por outra razão, um sábio dentre vós, ao pensar sobre vós mesmos, surpreendeu-se com a capacidade com que perdeis a saúde para juntar dinheiro e depois o perdeis na tentativa de recuperá-la. Dividis-me em pedaços: ora chamais-me anos, ora dias, ora horas… julgai-vos eternos! Ora, eterno sou eu, o tempo! Vivei o presente e deixai que eu cá ria de todos! Carpe diem! Isto não vos proíbo! Fazei o vosso melhor e usufruí de 2017 – esse tempo de mim!

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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